17 maio 2017

viagem a um país que já não existe (4)

    
Numa aldeia da antiga RDA contaram-me assim:

Depois da guerra, mandaram o meu avô para Buchenwald, dizendo que era por ser nazi, e expropriaram-lhe os terrenos. A minha avó, e a minha mãe - que na altura tinha 15 anos - também foram levadas para um campo de internamento. Eram os antigos campos de concentração, só lhes davam outro nome: campos de internamento. A minha mãe e a minha avó foram mandadas para um campo de internamento apenas porque eram da família de um homem que estivera no partido nazi. Quando as libertaram, proibiram-nas de se aproximar da aldeia onde estavam os terrenos que tinham sido da sua família. Tinham de manter uma distância de pelo menos 30 km. Só conseguiram voltar porque o presidente da Junta intercedeu e assumiu pessoalmente a responsabilidade. Mais tarde tentaram ir a tribunal para desfazer a expropriação, mas o caso não foi longe: mandaram-nas embora alegando que elas tinham comprado as testemunhas abonatórias com comida e roupa. Nunca mais puderam fazer nada. O tratado da reunificação determinou que não se faria a revisão das expropriações decididas sob ocupação russa, pelo que nem depois da reunificação conseguimos reaver os campos. Vão ser vendidos, o Estado alemão vai vender uma coisa que não é dele, e vai ficar com o dinheiro.

Foi buscar um dossier, tirou umas folhas: a cópia do registo predial, onde se viam as descrições das propriedades riscadas com uma linha impecável, traçada a régua.

Olha para isto: basta traçar um risco, e já foste roubado pelo Estado.

O meu avô foi para Buchenwald, mas na altura ninguém sabia onde é que ele estava, nem quando voltaria. Não se sabia nada. Estava desaparecido. Só quando a minha avó morreu é que descobrimos debaixo do seu colchão uma carta que um amigo do meu avô escreveu depois de ter sido libertado. Contava sobre a vida deles em Buchenwald. Em segredo fez a carta chegar à minha avó. Naquele tempo, ter acesso a essas informações era tão inconveniente e perigoso que ela optou por não contar à família. Escondeu a carta debaixo do colchão, e sofreu em silêncio."

Foi buscar outro dossier e mostrou-me a carta. Era uma folha de papel amarelado, muito fino, escrito à máquina, frente e verso, em quadras. A testemunha tinha-se dado ao trabalho de encontrar métrica e rima para descrever aqueles anos de miséria. Dirigia-se ao amigo morto, dizendo-lhe que ainda não conseguia acreditar que ele morrera. Que já o conhecia desde novo, mas só no campo se dera realmente conta do seu valor humano. Mencionava o roubo das terras e a prisão alegando que era chefe local do partido, mas que todos sabiam que ele nunca fizera mal a ninguém. Provavelmente teria sido denunciado por invejas ou vinganças. Primeiro estiveram numa prisão, e em Novembro de 1945 foram levados para Buchenwald. O primeiro Natal em Buchenwald foi terrível. Tratados como animais, sentiram-se desesperados. Falavam muito do seu filho. Alimentavam-se da esperança de que a notícia da sua morte na Frente Leste fosse um engano, e que ele voltasse em breve para casa. Depois foram separados. Cruzavam-se todos os dias a caminho dos trabalhos forçados, e nunca lhe ouviu uma queixa. Até que um dia não apareceu, nem no seguinte, nem depois. Algum tempo mais tarde soube que tinha morrido. Os sofrimentos físicos tinham vindo aliar-se à depressão. Rematava: "Mas não morrerás para nós. Haverá sempre lugar para ti no nosso coração, e havemos de nos lembrar de ti sempre que olharmos para as tuas terras."

Contaram-me isto numa aldeia lindíssima, entre a encosta das vinhas e o rio Unstrut. Por trás das fachadas das casas cuidadas, entre as ruas muito ordenadas e asseadas, inúmeras histórias de amargura, traição, vingança, desconfiança - e também a impossibilidade de olhar para a História, analisar e fechar contas com justiça e distanciamento.
Não pude deixar de pensar no filme "O Laço Branco", de Haneke.
Como é possível encontrar paz de espírito vivendo em silêncio a herança de todas estas violências?


  
  





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