30 maio 2017

le voyage dans la lune

(fonte: "Le voyage dans la lune", 1902 - Jason Shulman/Guardian - fotografias de exposição ultralonga, para condensar um filme completo numa imagem só)





O Education Project deste ano na Filarmonia é uma ópera do Andrew Norman, novinha em folha, inspirada no filme "Le voyage dans la lune", feito em 1902 por George Méliès.

É a minha segunda ópera em projectos destes, e talvez seja a última - não se sabe se o sucessor de Simon Rattle vai dar continuidade a este tipo de trabalho com crianças, jovens e cantores amadores.

A estreia mundial será em Berlim no próximo dia 17 de Julho. Repete a 18, e depois será apresentada por outro elenco em Londres (com Simon Rattle e a Sinfónica de Londres) e Los Angeles (com Dudamel e a Sinfónica de Los Angeles).

A história passa-se na lua, mas vou avançando de pés bem assentes na terra: a aprender "moonish" (uma língua que só tem vogais: aeiIou, uai, ieo, aie e por aí fora), a treinar andar na lua, e fazer vénias à rainha, e acertar os meus movimentos pelos do líder de cada um dos grupos, e não me enganar na parte em que bato palmas e na outra em que só canto, e no ritmo, e nas costas redondas, e no balanço para cima e para baixo mas não para um e para outro lado, e por aí fora.

Tenho duas semanas para aprender tudo isso, e para actuar e cantar com convicção, com a certeza absoluta que é assim mesmo.

Pés bem assentes na terra, disse? Mais abaixo, mais abaixo: tenho a autoconfiança ao nível da terceira subcave.

(Mas é como diz o Pennac no seu maravilhoso Chagrin d'École: se não sei, só tenho uma solução - arregaçar as mangas e desatar a trabalhar.)




colírio para os ouvidos



Está a chegar a última temporada do Simon Rattle na Filarmonia de Berlim. Enquanto o Kirill Petrenko não vem pôr à prova a lealdade que tenho àquele meu único e grande amor (e espero sinceramente que me conquiste, porque senão estou desgraçada, que não me dá jeito nenhum passar o resto da vida com saudades do Rattle) tento não perder nenhum dos seus concertos. O problema é que ultimamente os Filarmónicos têm andado a tocar com outros maestros. Deve ser o Rattle a fazer tratamento homeopático aos berlinenses: diluição do princípio activo. 

Em finais de Abril assisti ao programa que repetiram pouco depois em Chipre (Concerto da Europa 2017, pode-se ver aqui até 31.5.17). Era com o Mariss Jansons e o Andreas Ottensamer. Clarinete é o meu instrumento favorito, e se é tocado por aquele bonitinho, então, é colírio para os...
...ouvidos, claro.

Antes do início do concerto troquei duas ou três frases com a senhora ao meu lado. Perguntei-lhe se já conhecia o Ottensamer, e ela olhou para mim com ar de quem se pergunta "mas de que planeta me saiu esta aqui?!"
Ora! Saí do planeta das que pensam que o Ottensamer nasceu só para elas. Um planeta com um único habitante.



Tocaram o concerto para clarinete nº 1 de Carl Maria von Weber. No site da ARD pode ver-se a partir do 18º minuto. No concerto que vi tocou outro encore: variações jazz sobre uma peça brasileira. Estava com uma amiga portuguesa, e apostei com ela que era a "Manhã de Carnaval" de João Gilberto. Na sessão de autógrafos com o solista, ela perguntou-lhe quem era o autor, e ele respondeu:
- Luis Bonfá.
- Ai!, exclamei eu, perplexa, e chocada por ter perdido a aposta.
- Hi!, disse ele, virando-se para mim. Mandei-lhe um grande sorriso para acompanhar o meu "Hi!" a posteriori, porque me dava demasiado trabalho explicar o mal-entendido.

Dias depois, o Simon Rattle veio dar um ar da sua graça com a oitava sinfonia de Bruckner. Não sei que aconteceu, que conseguiu tocar aquela peça de oitenta minutos em menos de dez. Por este andar, um dia destes os concertos dele ainda acabam antes de começar. 

Este fim-de-semana fui ver a Anne-Sophie Mutter, com o Riccardo Muti. Comemorava quarenta anos de colaboração com a Filarmonia de Berlim, e tocava o concerto para violino de Tchaikovsky. Preparei-me para tudo - taquicardia, dificuldades respiratórias, sei lá - mas nada. A música não funcionou. Fiquei a pensar se a culpa seria do Wolfgang Rihm - ela há tempos tocou uma peça dele, e pode bem ter ficado com o violino avariado (anda um Stradivari a criar um violino para isto: sons de camiões a travar...).
Em todo o caso: a Anne-Sophie Mutter tocava, e eu não conseguia apanhar a onda para uma nuvem qualquer. No fim, o público aplaudiu entusiasticamente em pé, o que me deixou a sensação de ter sido outra vez o único soldado que ia a marchar no passo certo.


 

 
Depois de amanhã vou atrás do Simon Rattle para o Schiller Theater. O programa promete: La Damnation de Faust, com Magdalena Kožená a dar vida a uma Marguerite que na encenação de Terry Gilliam é uma judia tentando escapar ao Holocausto. As críticas alemãs à encenação deste antigo colaborador dos Monty Python é devastadora: um cortejo cronológico e simplista com a História alemã como fundo, desde as imagens de Caspar David Friedrich até às câmaras de gás.
Mas diz que, se fecharmos os olhos para não ver todos aqueles clichés, podemos ser salvos pela arte de Rattle a conduzir a orquestra de Barenboim.

Colírio pelos ouvidos.


27 maio 2017

colheita do dia

 



hehehe, desta é que o Monet não se lembrou...

 




Esta manhã senti inveja do Monet. Sim: senti inveja - não nego.
Estava a tentar fotografar nenúfares, e pensei no Monet que tinha criados para lhe irem arrumar os nenúfares lá no seu charquinho todas as manhãs, antes de começar a pintar. E eu ali sem ter quem me arrumasse os nenúfares, a fazer malabarismos com a máquina para tentar tirar o melhor partido daquele caos.

(Não sei se repararam: "charquinho". Garanto que até nem sou assim, isto é só porque estou a precisar urgentemente de uma consulta de ortopedia para resolver aquele tal problema no cotovelo.)

Mas depois passou um cisne. Hehehehe, um cisne entre dois grupos de nenúfares desarrumados, a compor a cena toda. Hehehehe, o Monet tinha criados, mas não tinha um cisne a trabalhar para ele.

Nem cisnes, nem um pato: imóvel durante fotografias e fotografias. Nem um galeirão: calmíssimo a dois metros da margem. E trabalham para mim de graça, hehehehe, que nem pão duro lhes dou.


    
  
 





Coitadinho do Monet, se fosse para ele pediam logo uma comissão. A exemplo dos donos dos montes de feno que ele retratava uma e outra e outra vez, para captar as diferença da luz conforme a hora do dia e o tempo. Os malandros dos lavradores viam-no de volta do monte de feno, com uma dúzia de rapazinhos a carregar as telas que ele ia pintando conforme as cores do momento, e de repente ficavam cheios de urgências de dar a palha às vacas. "Ai, coitadinha da minha vaquinha, deixou de comer erva fresca e só está bem com o feno deste monte aqui, isto vacas prenhes é um sarilho, enchem-se de desejos e nós temos de as satisfazer, e tal", e o pobre do Monet lá tinha de pagar para a vaca não lhe comer a paisagem antes de ele terminar a série.

Também lhe fizeram o mesmo com uns salgueiros. "Ai que não sei quê, temos de os cortar imediatamente". E toca o Monet de pedir o enorme favor de o deixarem alugar a paisagem por mais uns dias.

Mais esperto foi o Mahler, que tratou de compor uma paisagem alpina inteira, e não teve de pagar por isso, porque ninguém se lembraria de ameaçar que tinha de levar aqueles montes, aqueles pássaros e aquelas flores para outro lado. Foi a terceira sinfonia - um colega que o visitou quando a estava a compor parou a olhar demoradamente para a paisagem, e Mahler avisou: "escusa de olhar mais, essa já a gastei toda na minha composição".

A arte do Monet era mais sustentável. Um monte de feno dava para dezenas de quadros, e no fim ainda servia para a vaquinha. Além de dar de comer ao lavrador, por causa das coisas.


agarrem-me, que é hoje que me atiro ao lago...

 
 
 


25 maio 2017

mais um filme

Depois dos três filmes de ontem, mais este: acabei de descobrir que esta manhã terei de escolher entre o Obama e o Simon Rattle. Os palermas marcaram ambos a mesma hora para o encontro comigo. :(

(Sim, estou outra vez a participar numa ópera novinha em folha, acabada de compor há um mês pelo Andrew Norman, com o Simon Rattle e o Simon Halsey como maestros.) (A ópera, se querem saber tudo, é um work in progress: o desgraçado do compositor assistiu a um ensaio com orquestra e coros e teve de recompor aquilo que já é claro que nós vamos descompor por ser areia demais para o nosso carrinho de mão. Metem-se com amadores bem-intencionados, é puro drama...)

(Também descobri no calendário, em letras garrafais: "24 de Maio de 2017 - reunião de vizinhos na nossa casa")

a minha vida dava um filme

A minha vida dava um filme. 
 
Olhem-me só este dia: fui ver a exposição fabulosa que está no Barberini em Potsdam. Voltei para casa, e no comboio tirei fotografias fantásticas. "Fabulosa", "fantástica"... suspeito que ando a ler demasiados tweets do Trump - estou a ficar contaminada. É triste.
Como fiquei demasiado tempo em Potsdam (isto não é uma queixa), a seguir tive de desatar a trabalhar como uma desesperada, correndo atrás do atraso. O trabalho até estava a correr bem, e ia bem lançada para o continuar pelo serão adiante, quando tocaram à campainha. Eram os meus vizinhos, de garrafa de vinho e travessas de sobremesa na mão. Tínhamos reunião na minha casa, eu tinha de dar o jantar, e pensei que era só no próximo mês. Pedi-lhes que voltassem daí a 15 minutos e desenrasquei tão bem que já merecia uma medalha do 10 Junho, só por este sinal de extrema portugalidade: quando regressaram já não havia tábua de passar a ferro no meio da sala, nem pilhas de roupa passada nem pilhas de roupa por passar, nem caixotes que o correio trouxe ontem e estavam à espera de serem arrumados, nem louça suja na cozinha. E a mesa estava posta, com várias qualidades de queijo, pão, fruta, bebidas. Não sei o que vamos comer no feriado, mas um problema de cada vez.
A reunião correu muito bem. Até que a vizinha que tinha deixado os miúdos a dormir em casa se levantou e disse "tenho mesmo de ir embora agora". Logo a seguir voltou, tocou à campainha e pediu que o marido dela fosse imediatamente ver, porque havia um homem na casa deles. O marido voou pelas escadas. Nós fomos atrás, mas mais devagar. Um maluco tinha-se instalado no pátio em frente à porta dele, tinha feito uma fogueirinha, acendido umas velas, posto o computador de brincar a carregar, e mais uns desmandos do género. O meu vizinho gritou-lhe: "saia já daí!" e o outro respondeu "this is my back yard". O dono da casa ia para chegar a vias de facto, mas algo na cara do outro o fez perceber que era melhor não. Então foi buscar uma pá, e o outro pôs-se a andar. O meu vizinho foi atrás dele, gritava-lhe "desaparece!" e logo a seguir batia com a pá no asfalto e gritava "volta aqui!"
O outro provavelmente não sabia a qual das ordens obedecer, mas percebia muito bem a retórica da pá a bater na rua, e fugia cada vez mais depressa.
Logo a seguir chegou a polícia. Íamos começar a contar o sucedido, todos muito agitados, mas eles preferiram ir primeiro em busca do homem e saber da história depois. O nosso vizinho foi com eles, e ouviu a sua própria história a ser repetida entre todos os carros patrulha da zona. Daí a cinco minutos tinham apanhado o homem.
Entretanto nós continuávamos no passeio, e a vizinha da frente aproveitou para contar daquela vez que teve de regressar a casa de manhã e encontrou dois polícias e um ladrão no seu jardim. Pensando que era uma cena do filme que estavam a fazer na rua nessa semana foi perguntar a uma senhora da equipa quando é que terminavam as filmagens para poder entrar em casa.
- Não estamos a filmar, disse a outra.
- Mas então, aqueles dois polícias ali?
- No nosso filme não há polícias.
Desconfiada, dirigiu-se à sua casa. Um dos polícias veio falar com ela.
- O senhor é um polícia de verdade?
- Sou sim senhora, disse ele, e riu-se.
Ela achou estranho um polícia a rir-se daquela maneira, e perguntou:
- Tem a certeza?
- Tenho. - e riu-se ainda mais.
- Então isso quer dizer que aquele homem ali é um ladrão de verdade?
Era. Ou melhor: não era bem ladrão. Era um tipo que falava russo e não batia muito bem.
Como o de hoje: era lituano - ou talvez não, porque os papéis dele parece que eram falsos - e não batia muito bem.
Parece que a minha rua atrai pessoas que não batem muito bem. (Ai! Não disse nada! Adiante.)
Voltei para casa. Era uma da manhã, e eu estava finalmente sentada à mesa com uns amigos que chegaram entretanto para passar uns dias connosco. Tocaram à campainha. Era o vizinho que vinha buscar as coisas que deixara quando saiu a correr. Sentou-se connosco. Perguntei-lhe se queria um Porto para acalmar.
- Sim, se for dose dupla!, disse ele.
Dei-lhe o vinho, enchi outro copo para a mulher, e mandei-o para casa.
Agora são duas e meia da manhã e tenho de ir dormir a correr, porque daqui a bocadinho saio para ir ao centro ouvir o Obama.
 
A minha vida dava três filmes num dia só. 
 
 

24 maio 2017

"urina"

Começa a desenhar-se uma tendência: por falta de tempo passo um dia sem ir à Enciclopédia Ilustrada, no dia seguinte vou lá de madrugada e vejo o que os outros escreveram, fico cheia de ideias tipo "e diria mesmo mais", e com o prazo a estourar escrevo o mais depressa que posso, antes de sair a palavra desse dia.
Ontem/hoje foi assim (em edição revista e aumentada):

A Enciclopédia está de parabéns! Fizeram posts excelentes sobre #Urina.
Já estou ansiosa pelo dia em que a letra seja M...

Se me permitem alguns apontamentos soltos:

A H. V. S. já escreveu sobre a guerra dos sexos que há na Alemanha, para os homens urinarem sentados. Entretanto deixou de ser guerra dos sexos, agora é uma causa: os homens mais fracos já cederam, e tornaram suas as reivindicações das mulheres. Se calhar são os fracos que até acham bem dividir o trabalho com elas e limpar a casa de banho...
Há alguns anos participei num debate internético sobre o hábito, ou direito, de urinar em pé. Uma mulher confessou que lhe parece pouco masculino um homem urinar sentado. Passados uns tempos tive de limpar umas pingas que um homem deixou na minha casa de banho, e pensei na frase dela: o reverso da medalha de um homem másculo a mijar em pé é uma mulher de gatas a limpar a porcaria que ele faz.
Em todo o caso, ficam avisados: quem urinar em pé não vai fazer muitos amigos na Alemanha.

Diz que os homens gostam de fazer mira, e para evitar pingos à volta se deve pôr um sinal no fundo do urinol. Uma mosquinha, por exemplo.
Hehehehe, eternos rapazinhos.

Fizeram obras na escola primária do meu filho, e puseram urinóis. Não se esqueceram da mosca, mas esqueceram-se de explicar aos miúdos que não se deita no urinol o papel higiénico com que limparam as últimas gotinhas. Ao fim da primeira semana, quando a turma do meu filho se sentou em roda para conversar sobre o que correu bem e o que correu mal nesses dias, um miúdo disse que o que correu mal foi ter sido atacado pelo urinol. A professora quis saber mais, mas eles estavam todos enrascados. Até que finalmente se descobriu que os urinóis estavam entupidos. No fim, sobrou para o meu filho: ele tinha avisado os outros que não deviam usar o papel higiénico (sabia mais que eles, porque tínhamos um urinol em casa) mas não quiseram acreditar. E ele não quis falar com a professora sobre isso, para não ser queixinhas. Veio para casa furioso com a professora, por ela lhe ter ralhado. Confesso que uma das coisas que mais confusão me provoca na educação dos miúdos é essa dicotomia entre ser queixinhas e ser leal.

A minha avó passava a vida a mandar-nos pôr o penico debaixo da cama. Um dia que me esqueci, percebi rapidamente o porquê daquela obsessão. Quer dizer, não foi imediatamente, foi no dia seguinte, quando ia para me levantar, sem reparar pus o pé na borda do penico (da Vista Alegre, que naquele tempo não havia canalizações mas havia luxo na mesma), o palerma do penico virou e molhou tudo à volta.
Nos meus primeiros tempos na Alemanha tomei conta de um miúdo de três anos. O rapazinho estava a viver uma profunda crise existencial: uma irmã recém-nascida, e uma estranha em casa, que nem sequer entendia tudo o que ele dizia mas queria mandar nele. Um dia, como protesto, sacou da mangueirita e mijou o quarto dele de alto a baixo. Levei-o para a banheira, e ralhava enquanto o lavava: "estou furiosa! Isso não se faz! Isso é uma grande porcaria."
Sem se desconcertar, o raio do miúdo começou a corrigir a minha pronúncia. "Não se diz "furriosá", diz-se "furiosa", e por aí fora. Era um excelente professor de alemão.
Depois dei-lhe um rolo de cozinha e mandei-o limpar o quarto. Ele lá foi enxugando aqui e ali, no chão e nas paredes, e às tantas pára, olha em volta, e diz cheio de orgulho: "caramba! tenho uma pilinha muito boa!"
(Espero que dê para perceber que adoro aquele rapaz.)

22 maio 2017

"salvador"

Mais da Enciclopédia Ilustrada:

Levanta-se uma pessoa em plena madrugada de domingo a pesar se propõe esta palavra ou outra, ou outra ou esta. Mesmo em cima do acontecimento decide, "#Salvador! agora ou nunca!"

Vai-se a ver, e os espertinhos dos colegas evitam cuidadosamente a armadilha e vão buscar os mais remotos Salvadores para não se espalharem no mais óbvio de todos. Caramba, até parece que dizer Salvador Sobral agora é politicamente incorrecto.

Mas pronto: se não querem falar desse Salvador, também não falo.

Excepto para dizer que gosto muito da pessoa que tenho descoberto nele, especialmente por ser tão genuíno e parecer tão bem dentro de si. Viram-no nos ídolos? Quando o júri estava a apreciar o seu desempenho, ele comentou: "todos disseram que eu sou divertido. Estou a ver que da próxima vez nem preciso de cantar..." O gajo eleva o nível das porcarias em que entra.

Já que estou com a mão na massa, acrescento que a imprensa alemã louvou muito o modo como ele apareceu na Eurovisão, e disseram que parece acariciar as notas, e hesitar no texto como se estivesse a inventar as frases no momento em que as canta. Também gostaram do seu discurso quando ganhou o prémio, e concordaram. Quase todos disseram que tem um grave problema de saúde mas não gosta de falar disso, e respeitam o seu silêncio. E mencionam um "casaco que lhe assenta mal".

Deixei para o fim o melhor de tudo: na wikipedia em alemão dão enorme atenção ao seu sangue aristocrático, e perdem várias linhas a mostrar como é que o Salvador Sobral está ligado à casa dos Hohenzollern. Coitados dos alemães! Se não ganham quase ponto nenhum na Eurovisão, arranjam de "adoptar" o vencedor. Desta vez, por meio de uma tia que casou com um não-sei-quê alemão que não sei quê não sei quê e bla bla bla Carlos I de Hohenzollern, que há 500 anos foi tesoureiro e sei lá quê do sacro império romano-germânico.

Sobral stammt aus einer portugiesischen Adelsfamilie. Seine Schwester Luísa Sobral (* 1987) ist ebenfalls Sängerin. Die Eltern der beiden sind Salvador Luis Cabral Braamcamp Sobral (* 1955) und Luisa Posser de Andrade Vilar (* 1960). Sein Urgroßvater Luis José Aimable Braamcamp Sobral (1874–1934) war 4. Conde de Sobral.[3] Dessen Tante Maria Eugénia Braamcamp de Melo Breyner (1837–1879) hatte Francisco de Borja de Sousa Holstein geheiratet, Sohn von Pedro de Sousa Holstein, Sprössling einer deutsch-portugiesischen Nebenlinie des Hauses Oldenburg aus der Linie Schleswig-Holstein-Sonderburg-Beck.[4] Einer seiner Vorfahren ist Karl I. von Hohenzollern.[5]

21 maio 2017

e assim vai a vida


Esta semana houve dois acidentes de bicicleta em Berlim com pessoas que conheço pessoalmente. Uma delas foi uma amiga da Christina, que foi ultrapassada pela direita, se chegou instintivamente para a esquerda e aí foi apanhada por um autocarro que ia depressa e demasiado perto, e lhe passou um roda por cima do braço dobrado. Fractura múltipla, uma desgraça.
Esta manhã ao pequeno-almoço a Christina contou esse acidente, e acrescentou que Berlim é uma cidade perigosa para ciclistas.

Eu: Morro de medo de vos saber aí pelas ruas de bicicleta.
Christina: Eu deixei de ouvir música. Não se ouve nada, e somos surpreendidos por um carro que nos ultrapassa, ou algo do género.
Eu: O pai disse que vocês andam à noite sem luz.
[Eles olharam um para o outro, com ar comprometido.]
Matthias: Eu não! Tenho sempre a luz da frente, e ontem comprei uma para trás.
Eu: Então que foi essa troca de olhos?
Christina: O Matthias anda com a minha luz. Aproveitou eu ir para a Itália, e passou-a da minha bicicleta para a dele.
Eu: Então, ó Matthias, tu roubaste a luz à Christina e agora vens-me dizer que fazes tudo certinho?!
Matthias: Os conceitos de meu e teu são burgueses.

E assim vai a vida.

[ "Os conceitos de meu e teu são burgueses." é o que a Christina responde ao Matthias quando ele protesta por ela lhe ter roubado as meias. ]


"rato"

Da Enciclopédia Ilustrada:

Estou aqui há 24 horas a pensar se conto ou não conto. É que há coisas de que preferia não falar, porque trazê-las à luz das palavras pode implicar ter de mudar de vida...
Bem, cá vou eu de cabeça: alguém aqui usa veneno de ratos?
Eu... gulp... enfim, lá na quintinha minhota é um sarilho. Entram por todos os buracos das paredes (e se elas os têm!), metem-se pelos armários, roem, estragam, sujam.
Se penso nas dores lancinantes com que morrem, encho-me de pena e vergonha. Mas se penso no raio dos bichos a subir-me pelas paredes quando estou a almoçar, esqueço logo os imperativos morais.
No verão passado, por exemplo: comprei umas chouriças maravilhosas na feira, e para as deixar ao ar sem os ratos lá chegarem espetei uma colher de pau, de plástico muito liso, num buraco da trave por cima da lareira, e pendurei as chouriças na ponta. Para os ratos, seria uma subida de mais de 2 metros a pique, e depois um percurso tipo sobre o arame até chegar às chouriças, suspensas por um cordel fino sobre o vazio. Estava toda contente com a solução. Até ao dia em que fiquei doente na cama, com o cão muito solidário aos meus pés. Às tantas reparei que o Fox estava todo concentrado no pilar da lareira. Olhei também, e vi uma mancha negra a descer lentamente. Primeiro pensei que fosse um escaravelho gigante e peludo, mas depois reparei que era um rato a descer pelo granito, de cabeça para baixo. Fui às chouriças: estavam ratadas!
E o Fox, no meio disso tudo? Impávido e sereno, como se estivesse a ver um programa do Natural World sobre uma espécie protegida e em vias de extinção.
Em vias de extinção, quem me dera! Não lhes perdoo aquelas chouriças.
E assim vai a vida: tenho um cão um pouco maior que uma ratazana que é tratado com todos os cuidados e carinhos, e provoco sofrimento e morte a outros animais que não quero ter por perto. Animais esses que noutras famílias são considerados domésticos, e tratados com todos os cuidados e carinhos.
Não devia ter lido o livro do Génesis. Isto de sermos responsáveis pela Criação só me dá dores de cabeça...


19 maio 2017

"preservação"

No dia internacional dos museus, a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada foi "preservação".
Tarde e a más horas - de facto, à hora a que devia estar a propor a palavra do dia seguinte - escrevi sobre o Neues Museum de Berlim:

Antes que alguém ponha aí a palavra mágica de hoje, deixem-me fazer uma incursão daquelas do género pensar em voz alta (e escrever mais depressa do que se pensa) (como é que me aturam isto?!) no tema #preservação e museus, com o exemplo do Neues Museum ("museu novo") em Berlim. Foi construído na Ilha dos Museus, por trás do Altes Museum ("museu velho"), quando este começou a rebentar pelas costuras. (Muito gostava eu de saber o nome do "museu velho" antes de ter sido criado o novo. É que duvido que se chamasse assim desde o princípio, e que os jornais noticiassem "ontem o Kaiser presidiu festivamente ao lançamento da primeira pedra do Museu Velho".) (Ai! Ainda nem comecei e já estou a divagar!)

Adiante. O Neues Museum foi construído em meados do séc. XIX, para albergar as colecções egípcia, grega, etnológica e pré-histórica, entre outras, que já não cabia no primeiro museu da Ilha. O arquitecto resolveu decorar as salas à maneira do mundo de onde a colecção tinha vindo. Ou melhor: à maneira da ideia que tinha desse mundo. O que fez com que o museu preservasse algumas ilusões europeias sobre países longínquos. Foi muito criticado por isso, porque à data da decoração do edifício já se conhecia um pouco mais desses outros mundos e já se sabia que aquela encenação estava toda errada. Além disso, tornou muito mais difícil rearranjar as colecções dentro do museu, porque a bota deixava de casar com a perdigota.

Uma das colecções, como disse, era a egípcia. A Nefertiti, por exemplo, que foi trazida para Berlim por conta de um truque do arqueólogo (que cobriu a escultura com lama, e a descreveu como "busto de mulher"). Quando descobriu a traição, o Egipto começou um protesto que já vai no segundo século. Depois, muitos anos mais tarde, quando houve notícias de quererem saquear o Museu do Cairo, aqui a artista pensou "ai! ao menos a Nefertiti está em sítio seguro - chegou aqui por vias desonestas, mas sempre está mais preservada". Isto é aqui a artista quando sente em vez de pensar, e mais o político americano que disse sensivelmente o mesmo quando o Museu Nacional do Iraque foi saqueado. Quem nos preservasse aos dois num frasco de pickles exibido nas feiras...

O Museu Novo foi duramente atingido pelos bombardeamentos da segunda guerra mundial. Quase metade do edifício foi destruída, e a outra metade ficou muito danificada. A ruína foi ficando por ali (coitada, não tinha mais para onde ir) até à reunificação. O arquitecto encarregado da reconstrução/construção decidiu preservar todas as memórias do edifício, e construir a partir daí. Deixou ficar tudo o que estava sem fazer retoques ou melhoramentos (desde o que restava dos adornos orientalistas aos buracos das balas e explosões nas paredes) e construiu o que faltava com materiais e estética contemporâneos. A população de Berlim dividiu-se: uns diziam que este projecto era genial, outros protestavam porque queriam ver o seu querido velho Museu Novo tal e qual como tinha sido feito cento e cinquenta anos antes. Estes últimos devem estar agora todos contentes com o pastiche monumental que fizeram do outro lado da praça: construíram um edifício que repõe a fachada do palácio do Kaiser (que foi destruído pelo regime da RDA e desmantelado até à última pedra, até só sobrar o terreno). Que sentido fará a preservação de uma imagem histórica com um edifício de betão, a fazer de conta que é um palácio barroco? Até parece o Nikolaiviertel, do lado de lá do rio, com casas a imitar as medievais, que lá estavam no princípio desta cidade, mas em blocos de betão pré-fabricados.

Ora bem: não há aí ninguém que me mande parar? É que isto de viver em Berlim dá milhentas histórias sobre preservação. E se não me param, o que vou ter de pagar em minis(*) é o bastante para desgraçar o fígado de todos os enciclopedistas juntos. Ora, o fígado é um órgão que se quer bem preservado. Portanto, calar-me agora é uma questão de saúde pública.


(*) Na Enciclopédia Ilustrada, as multas são pagas em minis.

18 maio 2017

viagem a um país que já não existe (7)





Aconteceu de noite numa pequena aldeia, há coisa de cem anos: uma jovem mulher calcorreou silenciosamente as ruas de pedra, entrou na casa do poço, levantou a tampa e atirou-se para o abismo de 70 metros que os aldeãos tinham cavado para ter água. 
Nunca mais ninguém se serviu daquele poço.

A mulher estava grávida, o pai da criança não quis casar com ela. Imagino o seu desespero, a pressão social, a vergonha, a sensação de claustrofobia. Imagino com que estado de espírito terá passado pelos caminhos ladeados de soberbas árvores, pelos campos bem tratados, as ruas limpas, as casas da gente abastada no centro da aldeia. E quase sorrio ao pensar no preço que fez pagar à comunidade: roubaram-lhe a dignidade, roubou-lhes a água.
 





(Esta calçada foi feita por portugueses. A população queria asfalto, mas os arquitectos urbanísticos disseram que o centro histórico tinha de ter um pavimento mais nobre, e pediram a quem sabe. Portugueses. Está bonito e muito bem feito. Mas quando neva ou há gelo, a velhinha de oitenta anos com quem falei não sai de casa. Tem demasiado medo de escorregar nas pedras lisas.)





não sei se isto é a conspiração ou apenas a teoria da dita cuja mas: socorro! tirem-nos deste filme!

Umas das primeiras notícias que li esta manhã veio da WikiLeaks:


Pouco depois li que Robert Mueller, antigo director do FBI, vai conduzir uma investigação independente sobre as eventuais ligações entre a Rússia e pessoas da campanha do Trump.

Mas o que é isto? Mal o Mueller é nomeado aparece logo na WikiLeaks algo que o compromete? E porque é que o FBI se lembraria de levar urânio enriquecido à Rússia? Por este andar, um dia destes ainda vai introduzir secretamente um chador no Irão...

Tentei recolher mais informação sobre esse transporte de urânio enriquecido, e deparei com uma notícia do TAZ, de Setembro do ano passado, afirmando que num relatório confidencial do governo alemão se acusa a WikiLeaks de se ter deixado manipular pelos serviços secretos russos para fazer campanhas de desinformação em países ocidentais. Os serviços secretos preparam material de forma a parecerem documentos oficiais americanos, e enviam sob anonimato à plataforma. Esta publica os documentos que melhor servem as suas próprias escolhas políticas. Tão simples que até dói.



viagem a um país que já não existe (6)

Nos cemitérios daquela região as campas são cuidadas como canteiros. Visitámos três.
Deixo dois exemplos das suas campas-canteiro:



E mais campas-canteiro no segundo cemitério:





À entrada deste deparámos com uma fila de campas dos soldados da aldeia que morreram na primeira guerra mundial, e um memorial com o nome dos 25 soldados vítimas da segunda guerra.




Por uns momentos pensei no horror que terão sido os anos da guerra naquela aldeia: como terão conseguido suportar a morte de vinte e cinco homens jovens numa aldeia de cento e oitenta pessoas? E logo me lembrei do que aconteceu na aldeia da avó de uma amiga minha, russa: todos os homens saíram para a guerra, eram quatrocentos, voltaram dois. E um nem era de lá. Simplesmente, ao descobrir que toda a sua família estava morta, decidiu ir com outro soldado sobrevivente para a terra dele.

Que dizer daqueles que, perante uma Europa cada vez mais perdida de si própria e dividida em nacionalismos e extremismos, encolhem os ombros e dizem que mais vale deixar rebentar tudo para começar de novo? Cinismo, ignorância, irresponsabilidade. Somos povos mimados pela História, já nem sabemos - nem queremos saber - que a guerra é isto: partiram todos os quatrocentos, regressaram dois.

Fomos ao terceiro cemitério porque a nossa amiga queria regar a campa da mãe. Passámos junto ao cemitério velho, ao lado da igreja. Agora é um parque infantil, comentou ela com uma careta: "que coisa sórdida, fazerem um parque infantil por cima dos mortos da aldeia". Não lhe perguntei porque é que o tinham mudado de lugar, se afinal o novo não era maior que o antigo. Mas admito que tenha sido manobra ideológica, para separar a Igreja do culto da memória dos que morreram.  

No cemitério novo havia duas velhinhas sentadas num banco, a conversar pacatamente à sombra de uma árvore frondosa. A filha de uma delas morreu muito nova, de cancro. O nosso amigo comentou depois que se sentia aliviado por a mulher já não morar naquela aldeia. Havia demasiados casos de cancro em pessoas jovens, e ninguém sabia porquê.

O silêncio. Quase trinta anos depois, ainda se cala muito do que aconteceu nesse país que já não existe.
 
  



17 maio 2017