17 novembro 2017

"romantismo"

Ontem, na Enciclopédia Ilustrada, a palavra era "romantismo". Precisava de meter uma semana de férias para apreciar todos os caminhos que lá se abriram: Victor Hugo como pintor, Rachmaninov, música quase pimba, temas românticos, António Nobre, a "Révolucionaire" de Chopin acompanhada por um texto tão bom como a música, e muitíssimo mais.

Passo a vida a pensar isto, e é sempre - e cada vez mais - actual:
"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.”

Hoje a palavra é Saramago, amanhã não sabemos.

Só sei que precisava de meter todos os dias uma semana de férias, para saborear tudo e aprender muito com eles. :)

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Pequena amostra do trabalho dos estimados colegas:


"VICTOR HUGO PINTOR
Todos conhecemos a importância de Victor Hugo como um dos mais importantes autores e teóricos do #ROMANTISMO.
Já a sua obra como pintor é menos conhecida e, no entanto, muito original."





" #Romantismo|
E não me vou embora sem vos deixar aqui a minha peça favorita de Chopin, chama-se Révolucionaire, pois claro e, é fatal, traz-me lágrimas aos olhos.
É preciso lembrar que a Polónia é um país desde sempre rasgado entre os Impérios europeus e no fim do sec. XIX foi sujeita a três partilhas entre Rússia, Prússia e Áustria, que condenaram o país a desaparecer do mapa e o seu território a ser dividido.
Em 1807, ( parece que graças a Maria Walewska) Napoleão restabeleceu um Estado polaco, o Ducado de Varsóvia, mas em 1815, após as guerras napoleónicas, o Congresso de Viena tornou a partilhar o país. A porção oriental coube ao tzar russo, e era regida por uma constituição liberal. Entretanto, os tzares logo trataram de restringir as liberdades polacas e a Rússia terminou por anexar de facto o país.
Chopin como tantos intelectuais da sua época admirava Napoleão. E esta peça de 1831 ainda remete para o 'libertador' da Polónia.
Eu ouço-a sempre como um diálogo entre duas pessoas que se amam, ou um diálogo dentro de si próprio...em que o refrão é: tenho de ir, tenho de ir.
Ouçam são 2 minutos fabulosos."




"(...) que não falte o clímax do #romantismo, a cena de todos os arrepios. Com o bónus de podermos ficar a olhar para a cara da Ingrid Bergman enquanto o tempo passa."




"Der Wanderer über dem Nebelmeer (O caminhante sobre o mar de névoa), de Caspar David Friedrich, pintura que se diz encarnar a essência dos princípios da estética do #romantismo da paisagem: uma figura solitária contempla uma imponente paisagem alpina em cima de um pico rochoso, descrição a que hoje se acrescentaria: "empunhando um dispositivo que permite fixar o momento".
Mudam-se os tempos, mudam-se as estéticas, mas nem por isso as vontades mais profundas."





"
#Romantismo, além do sentido próprio no domínio da arte, é aquela ideia que conduz a esse estado nebuloso e açucarado em que homens e mulheres se permitem os maiores erros :-)
Um grande filme, da época em que os grandes filmes eram todos filmes românticos, foi o Breve encontro, ou "Brief encounter", como dizem os americanos... Com Trevor Howard e Celia Johnson, foi realizado por David Lean a partir de uma peça de Noel Coward. O filme tem tudo para ser uma xaropada movediça que se cola aos pés e aos dedos, e do qual não é possível escapar... Um amor impossível e Rachmaninoff do princípio ao fim...
No entanto, é salvo pela subtileza de David Lean. Subtileza e inteligência podem salvar até o mais romântico dos filmes... ;-)
Teve Óscar para melhor realização, melhor atriz, e melhor argumento adaptado. Viria ainda a ganhar o Grande Prémio em Cannes. A fotografia foi de Robert Krasker, que vai mais tarde ganhar um Óscar com o Terceiro Homem.
Houve dois remakes, que me lembre, desta história. Mas sem o David Lean..."



"quem me conhece sabe bem da minha paixão por esta música absolutamente deslumbrante.
isto é #romantismo puro e duro"




"Com #romantismo, não há nada a fazer: lie back and enjoy!
Temos banda sonora assegurada para dias a fio. Pela minha parte, gosto de tudo; mas do que eu gosto mesmo-mesmo, é do excesso, ou da sua encenação: tão encenação que deixa de doer, é puro deleite na dor-que-se-finge-ter.
Entre as prendas mais bonitas e comoventes que já tive na vida, conta-se uma noite de "canções de dor de corno", que um grupo de alunas e alunos brasileiros organizou para mim, aqui há uns dois anos. Só parámos de cantar de madrugada, quando a vizinhança ameaçou com a polícia (e isto na Alta de Coimbra, o que não é fácil 😄)
Ora digam lá se estes 3 minutos não são imbatíveis em deleite!"




16 novembro 2017

"contra a doença do politicamente correcto" (3)

Retomo (pela antepenúltima vez, prometo) o exemplo do  artigo de Bárbara Reis no Público, com o título "contra a doença do politicamente correcto", no qual se suja propositada ou inadvertidamente a água da banheira para poder deitar fora tudo o que está dentro, fechando os olhos com muita força para não ver o bebé que também lá estava.

Este post é sobre o fenómeno de fechar os olhos com muita força.

O artigo começa assim: Este Verão, engasguei-me a rir com o alerta da Unidade para a Igualdade e a Diversidade da Universidade de Oxford, que começou por dizer ao staff que não olhar os alunos olhos nos olhos podia ser racismo e, a seguir, anulou o aviso por se ter esquecido de que as pessoas com autismo não conseguem olhar olhos nos olhos e que seriam, portanto, discriminadas.


Pergunto-me como é possível escrever um texto contra o politicamente correcto que começa por referir que em 2017 foi necessário avisar o staff de uma universidade inglesa que se deve olhar todos os alunos nos olhos, independentemente da cor da sua pele. Pergunto-me como é possível uma pessoa "engasgar-se a rir" perante estes sinais de racismo.

O texto continua assim:

Caminhamos para uma sociedade que aceita e promove a censura e que, entretida a inventariar “microagressões” (...)

Um professor ou um funcionário de uma universidade que não olha um determinado aluno nos olhos devido à cor da sua pele é uma micro agressão. "Apenas" uma das milhentas humilhações a que algumas pessoas são sistematicamente sujeitas durante toda a sua vida, do parque infantil ao lar de terceira idade, perpetradas por uma maioria autocentrada que nem sequer se dá conta do mal que lhes faz. E Bárbara Reis entende que chamar a atenção para esses comportamentos é passar ao lado do que é realmente importante. 

A newsletter da universidade de Oxford dava outros exemplos de micro agressões, tais como perguntar a uma pessoa de onde é que ela vem. Não sei como é em Portugal, mas na Alemanha é extremamente comum: se uma pessoa tem a pele ligeiramente mais escura que o considerado normal no país, a primeira pergunta que lhe fazem é de onde vem, ou se entende alemão. Uma pergunta que não tem más intenções, mas faz muito mal a quem a ouve, porque lhe confirma e repete à exaustão que basta uma pequena diferença na cor da pele para todos à sua volta partirem do princípio de que é um elemento estranho a essa sociedade. Aliás, a própria formulação "cor de pele diferente do normal" aponta já para a condição de "anormalidade" na vida da pessoa.

É preciso ter muita vontade de não ver para considerar que isto são detalhes sem importância. E é preciso uma boa dose de cinismo para chamar "geração snowflake" a quem quer questionar e desinstalar comportamentos enraizados que provocam sofrimento às pessoas dos grupos minoritários.

Em contrapartida, não custa muito repensar os hábitos e mecanizar outros comportamentos: olhar para todas as pessoas nos olhos (excepto se forem autistas), dirigir-se a elas na língua do país onde estão (elas avisarão, se não entenderem), evitar a pergunta sobre a sua origem (a não ser que seja realmente óbvio que se trata de um estrangeiro), evitar usar com sentido depreciativo palavras associadas a minorias (frases como "és mesmo judeu!", "não sejas maricas!", "isto tem classe, não é para pretos", "pareces atrasado mental", entre outras, podem perfeitamente ser trocadas por "és mesmo sovina", "não sejas medroso", etc.).

Não custa muito. Mas - como no artigo do Público que tenho estado a referir - há quem prefira pegar em exemplos muito mal contados para ridicularizar e rejeitar o enorme esforço em curso para que a sociedade tome consciência do que há discriminatório nos seus hábitos.


O que é que move estas pessoas, afinal? Porque será que se sentem ameaçadas na sua liberdade quando lhes chamam a atenção para o facto de provocarem sofrimento a outros? Porque é que temem o esforço de tratar as minorias com o mesmo respeito que é devido a todos os seres humanos? 

E porque é que os privilegiados reclamam para si o direito de dizer o que lhes apetece, mas depois se armam em vítimas se são confrontados com o que disseram e com a carga de agressão do que disseram? Como é possível chamarem "snowflakes" às pessoas que acusam a ofensa, e ao mesmo tempo não quererem ser ofendidos pela crítica que lhes é dirigida?
Quem é o "snowflake", afinal?

Mais perguntas: o que leva pessoas que pertencem à maioria, e que por isso mesmo têm a vida mais facilitada, a fazer o discurso da auto vitimização "ai, que maçada, já não se pode dizer nada porque  está-se sempre a ofender alguém"? O que é que têm de tão importante para dizer, que tem realmente de ser dito, mesmo que faça sofrer pessoas com outra cor de pele, ou com deficiência, ou de determinada etnia, ou de determinada orientação sexual?


Nada disto faz sentido. Mas se olharmos por outra perspectiva, as peças começam a encaixar:

Sabemos que a extrema-direita dos EUA criou toda uma retórica no espaço público, alimentada também pelas fake news, que reforça a ideia de que as minorias estão a conquistar o "espaço vital" (usei a expressão propositadamente) da maioria. Sabemos que a Rússia inundou as redes sociais americanas com mensagens combativas tanto para a extrema-direita como para a esquerda e os grupos de luta pelos direitos civis, com o objectivo de polarizar e desestabilizar ainda mais aquela sociedade (podem ver aqui alguns dos posts russos lançados nas redes sociais dos EUA para influenciar as eleições presidenciais de 2016).

É certo que o "politicamente correcto" muitas vezes cai em exageros que não ajudam à sua causa. Mas fechar com toda a força os olhos para não ver a justeza dessa causa, e abri-los para ver apenas os exageros (e as fake news que deturpam os factos para melhor servir o discurso extremista) é fazer o jogo de quem está a orquestrar uma campanha para destruir a paz social e atacar a Democracia.

No artigo de Bárbara Reis, o mais assustador é saber que uma antiga directora de um dos diários mais importantes de Portugal se deixou apanhar na armadilha das fake news ao serviço de um discurso que recusa reconhecer os problemas quotidianos ligados à condição das minorias. E, se querem saber tudo, também é assustador que eu tenha escrito ao director do jornal, alertando-o para o facto de no Público estarem a passar fake news como se fossem mesmo factos, e ele nem se tenha dado ao trabalho de me responder, quanto mais ao de fazer uma adenda ao texto da Bárbara Reis, que - a esta data - já foi partilhado 4179 vezes.

Tenho a certeza que a Bárbara Reis não fez por mal. Mas um jornal como o Público, se não quer passar a fazer o jogo do Breitbart News, tem de se esforçar mais para fazer bem.

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Adenda, para os mais interessados neste tema:

Political correctness: how the right invented a phantom enemy

15 novembro 2017

o que conta é a intenção



Uma pessoa põe-se a ver este vídeo de um cardeal a ser vestido por uma multidão de criados em plena igreja, ao som de música de órgão, e pergunta-se quanto tempo é que demorava a vestir a rainha Maria Antonieta, e como seria a música que tocavam enquanto lhe iam pondo em cima do corpinho um e outro e mais outro atavio, e se o pessoal da corte também estaria impacientemente à espera do "Ite, missa est".

Uma pessoa depois vê como o homem desfila pela igreja com os criados da corte a segurar a cauda vermelha do seu manto, e pergunta-se porque é que o órgão não toca a marcha nupcial, e onde estará o outro noivo.

Uma pessoa repara finalmente na exuberância dos panos à volta do tronco, e entende finalmente:
é uma gueixa cristã!

Pensei logo em Maria Madalena, claro. E comovi-me com o simbolismo da globalização da mensagem cristã: um cardeal feito gueixa da Igreja de Jesus Cristo, treinado para animar e satisfazer os fiéis, e para lhes servir chazinho com todos os requintes.

O cardeal Burke se calhar não devia ler tanto a Hola, e alguém havia de lhe dizer que estas encenações assim agora é só nas revistas, mas pronto: o que conta é a intenção.

[No site onde encontrei isto apontam um detalhe inacreditável, nestes tempos de escândalo devido à pedofilia na Igreja: ao minuto 3:25 há um miúdo que ajoelha várias vezes à frente dele, e beija o barrete e o manto do marmanjão.]






"you're a chancellor, not a gif"

Agarrem-me, que parece que a Tracey Ullman vai ser o meu próximo vício... :)




"obesidade"

Dia de "obesidade" na Enciclopédia Ilustrada:


Então um grupo tão grande como o nosso, e não há aqui um único médico que nos venha explicar a
obesidade com científico saber?
O que se segue são provocações, a ver se os colegas da área da Medicina vêm cá dar um ar da sua graça.

Fui morar para os EUA na altura em que ainda comia tudo o que me apetecia e não acrescentava nem um grama ao peso. O que contribuiu para ficar ainda mais impressionada com a obesidade daquele povo. Pensei que seria problema da comida deles, mas eu também a comia e não engordava. Até que me explicaram que parte dos problemas de obesidade podia ser resultado de questões genéticas. Alguns povos indígenas tinham tanta dificuldade em encontrar alimento em quantidade suficiente, que o corpo se habituou a aproveitar muito bem cada caloria que conseguia ganhar. Quando começou a haver abundância de alimentos, o corpo não conseguiu adaptar-se ao novo registo, e continuou a armazenar o máximo possível, de modo a ter reservas para a próxima vaga de fome.
Pareceu-me uma teoria razoável. 
Anos depois li um artigo sobre uma senhora que tinha uma diarreia que nunca mais acabava, e a quem fizeram um transplante de fezes de uma pessoa saudável, para restabelecer a sua flora intestinal. A pessoa curou-se da diarreia, mas começou a engordar inexplicavelmente. Descobriram depois que a tal pessoa saudável também era obesa, e que nas fezes transplantadas terão também ido as bactérias que causam desequilíbrios no metabolismo e levam ao desenvolvimento da obesidade. 
Por essa altura já eu ia a caminho dos tais dez quilos mais do que sempre tinha tido, e fez-se-me luz: provavelmente as culpadas são as tais bactérias, que eu terei apanhado numa casa de banho pública de uma reserva indígena qualquer!
Moral da história: nas casas de banho públicas, não se sentem nunca nas sanitas! Podem engordar.

[agora pergunto-me quantos ;)  ;)  ;)  tenho de largar aqui para perceberem que estou a brincar]

"panteão"

No dia em que a palavra mágica da Enciclopédia Ilustrada era "panteão", um dos enciclopedistas escreveu este texto (a gente lá na Enciclopédia rimo-nos muito):

Ali estavam no #panteão postos: Garrett e Junqueiro, e o João de Deus... O Sidónio presidente quase rei, e o institucional golpista Óscar, jamais Acúrsio, Carmona, uns antes dos que vieram depois, e outros depois dos que vieram antes, mas todos sortidos... Arriaga e Teófilo, sucedendo-se sucessivamente sem cessar, até o mundo se acabar. O Delgado Marechal que estava nos Prazeres, já não estava nos prazeres... O literário, presumível 3º atirador, Aquilino, como uma águia, agora cega. E os últimos inquilinos, Amália, Sophia, e da Silva Ferreira, Eusébio, o amado do povo, por todos invejado... Ali estavam, postos, a beber o seu cházinho na sala dos fundos, quando o Mestre Aquilino assim diz:
"O pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos"... "A tudo se habitua o homem, a todo o estado se afaz", logo diz, conciliador, João Leitão da Silva, o Garrett... "Mas ó Aquilino, isto não é vinho, pá! É chá!!!" - chuta Eusébio... Sophia, olímpica e grega, avança na sua elegante postura vertical, e apesar de estar deitada, acrescenta: "realmente, que bruto, só quero nos teus quartos forrados de luar, onde nenhum dos meus gestos faz barulho, voltar." Junqueiro, sacudindo o clerical pó do templo, vocifera: "Ó de Breyner, e que tal se fosses fazer poesia com métrica ali para o teu caixão, e mais o dicionário de rimas do Teófilo?"...
Fez-se um silêncio sepulcral...
O General, tomou as dores da dama, e exclamou: "você, evidentemente está demitido!" - Mas "demitido de quê?" - interrogava-se João de Deus, que por ali se distraía a brincar com umas letrinhas de plástico... UVA, PUA... "ó que interessante"...
Entretanto, Óscar Carmona e Sidónio Pais, movidos por um estranho e síncrono mal-estar, saíram discretamente, e foram cada um para seu caixotinho, conspirar contra o outro. Teófilo e Arriaga, saltam ambos das cadeiras deitadas e dizem ao mesmo tempo: "Viva a República!!!" Para logo caírem numa dupla e intrigante letargia...
Só Dona Amália, com a voz embargada, e pedindo um pouco de mel "se faz favor, que tenho a voz arruinada, desde que aqui estou" - Só ela, tem um momento de lucidez... "Isto faz aqui falta amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho, a fumegar na tijela..." - "Telefonem lá para a DGPC, por amor da Santa..."

14 novembro 2017

conseguir não ver o que se nos mete pelos olhos adentro


1. A propósito da notícia do DN sobre a onda de denúncias de abuso sexual em Hollywood, um leitor escreveu: "Elas prostituíram-se para subir na carreira e ganhar fortunas e agora que têm a carreira feita é que têm a pouco , - ou nenhuma... -, vergonha de se vir queixar do que elas próprias pretendiam?"

Quem nunca ouviu a alusão sobre determinada mulher estar a subir na carreira em posição horizontal?
É uma acusação corrente. Quem assim fala, aceita e afirma implicitamente as regras do jogo numa sociedade dominada por homens: às mulheres não basta competência e talento - se querem ir longe, têm de aceitar fazer o jogo dos predadores sexuais que têm poder.
Quem ouve, e nada diz, ajuda a consolidar a ideia de que são essas as regras normais do jogo.
Muito haveria para dizer sobre uma sociedade que, por um lado, aceita como normal que as mulheres "façam carreira em posição horizontal" e que sem esse tipo de "concessões" lhes seja muito difícil fazer carreira, e ao mesmo tempo as acusa - como este comentador - de fazer carreira segundo as regras consideradas normais. Mas isso seria tema para um livro, muito mais que um pequeno post.


2. Os abusos de Weinstein eram de tal modo do conhecimento público que até foram objecto de piada numa cerimónia dos Óscares. E as gargalhadas do público não deixam margem para dúvidas: o pessoal sabia que para fazer carreira em Hollywood era preciso fazer "concessões" a Weinstein.




3. Um dos momentos mais sérios do filme "A Rainha de Espanha" (2017), de Trueba, é a relação de poder entre um dos actores mais importantes do elenco e um actor que sabe que a sua carreira acaba no momento em que oferecer resistência. Mesmo que fosse só por esses poucos minutos, já valia a pena ver o filme.
Porque é que meteram essa cena no filme? Narrativa cinematográfica, ou denúncia urgente?




E porque é que nós, que rimos nos Óscares e ficámos chocados e pensativos neste filme, não fomos capazes de dar o passo seguinte, o de falar abertamente sobre isto que vemos mas não queremos ver, isto que se alimenta do nosso silêncio e das nossas gargalhadas? E porque é que há tantos a chamar ao fenómeno #metoo um caso de histeria, exagero de bagatelas, auto vitimização?

Esta nossa cegueira é um caso sério.


13 novembro 2017

unicórnios na prisão da Stasi

No sábado passado voltei à prisão da Stasi em Hohenschönhausen, aqui em Berlim. Desta vez a visita foi conduzida por Karl-Heinz-Richter, também antigo prisioneiro político. Ao contrário da primeira que lá fiz, na qual o antigo prisioneiro nos falava sobretudo da história daquele centro prisional, da organização e dos métodos da Stasi, o nosso guia desta vez usou o cenário da prisão para nos contar a sua história. E que história!

Cito, na primeira pessoa, de memória:

Fui preso quando tinha 17 anos. O regime tinha a possibilidade de declarar que um menor em circunstâncias determinadas podia ser equiparado a um adulto, e deram-me tratamento prisional de adulto. Pior ainda: o Mielke gostava muito de mim, e eu tive azar - como quase sempre quando o amor não é retribuído.

Tinha um grupo de amigos que queria era fazer música com instrumentos de sopro, nada de cançõezinhas da Juventude Socialista. Sempre que nos vinham chatear para nos registarmos nas organizações da juventude, nós dizíamos que éramos cristãos. A vida ia correndo bem, mas às tantas eles começaram mesmo a apertar connosco. Alguns dos meus melhores amigos tentaram fugir para a Alemanha ocidental, e foram mortos. Enchi-me de raiva, e prometi aos outros: vou levar-vos todos para o outro lado. Descobri um sítio onde nos podíamos esconder na ponte da estação da Friedrichstrasse, para saltar para o comboio entre Moscovo e Paris. Todas as noites fugiam dois. Até ao dia em que tentei fugir eu próprio e as coisas correram mal. Tive de escolher entre arriscar-me a ser morto pela Stasi, ou saltar de uma altura de 7 metros para betão. Saltei. Parti as duas pernas e um braço, mas ainda consegui chegar a casa, a 3 km dali. A Stasi foi-me lá buscar uma semana depois - alguém me tinha denunciado. Levaram-me partido como estava para a prisão. O Mielke disse que eu era prisioneiro pessoal dele, e deu ordens para que não tivesse tratamento médico. Enfiaram-me numa solitária minúscula, sem luz do dia, sem água para me lavar, apenas com um balde a servir de sanita. Sabem o que acontece a quem não se lava? Fica cheio de comichão, começa a coçar, e acaba com a pele em carne viva. Tudo infectado. Um guarda disse-me para tratar as feridas com urina, e era o que eu fazia. Mijava para a mão, esfregava na ferida. Imaginam o cheiro que eu largava?
E depois, a comida. Pão húmido, e papas de cevada. Ainda agora fujo como tresloucado de sítios onde houver cheiro de papas de cevada. Na cave onde estava havia 300 presos a comer o mesmo. E os peidos que aquilo provocava? Vivíamos rodeados de um fedor imundo.
E ali estava eu, cheio de dores. Pedi analgésicos, uma vez, duas vezes, três vezes. Não me deram. Não voltei a pedir. Aprendi a meditar para tentar abstrair da dor. Quando me deixaram sair, para ser tratado, estive 18 meses num hospital. Como tinha os ossos todos tortos, tiveram de me operar 15 vezes para os partir e voltar a soldar na posição correcta.

Dizem que 90% das pessoas que passaram por esta prisão eram inocentes. Mas foram de tal modo torturadas, que 95% delas assinaram as confissões que lhes exigiam. Eu não assinei. Não é por ser herói - não há heróis nas câmaras de tortura. Simplesmente, quando lá entrei disseram-me que me iam matar. E eu pensei que enquanto não assinasse, eles não me matavam. Repetiam muitas vezes que me iam matar, e uma vez chateei-me e respondi-lhes: "então matem! Só me podem matar uma vez. Depois disso, só vos resta fazer violação de um morto". Ui, foram aos arames!

Eu tinha um problema: era berlinense, e a maior parte dos agentes era da Saxónia. Saxões! Onde é que já se viu um rapaz berlinense gostar dos saxões? Eles davam-me ordens no seu dialecto, e eu não obedecia. "És surdo, ou quê?", berravam eles. E eu: "não vos entendo. Vejam lá se conseguem falar Hochdeutsch." [E ria-se. Ele, que falava em dialecto cerrado de Berlim, a mandar os soldados falar a norma culta...]

[Entretanto tínhamos chegado à garagem onde entrava a carrinha com cinco compartimentos minúsculos para prisioneiros e lugar para um guarda. Ele pôs-se em frente à porta que dava para o corredor do edifício, e continuou: ]

Passaram por aqui milhares de prisioneiros. Imaginem o medo de cada um dos que passava por esta porta! As mulheres, estranhamente, eram mais aguerridas. Mais corajosas. O que elas arriscavam! Ao fim de algum tempo correu a notícia de que havia um rapaz de 17 anos com os ossos todos partidos e sem medicamentos numa cela. Algumas, que trabalhavam na cozinha, passavam-me por baixo da porta folhas de papel dobradas com um bocadinho de sal e de pimenta dentro, para melhorar o sabor das minhas papas de cevada. Quando me levavam para o interrogatório eu tinha de levar o papel comigo, porque na minha ausência a cela era revistada e se apanhassem aquilo as mulheres iam pagar bem caro.

O primeiro interrogatório demorou 25 horas. Eles queriam a todo o custo saber por onde é que os meus amigos fugiam. Eu não podia dizer, porque ainda havia dois que queriam fugir. Tinha de ganhar tempo.

[Continuámos a andar. Mostrou-nos o duche, numa parte da prisão construída na época em que a RDA tentou ser reconhecida internacionalmente, e para isso melhorou as condições dos prisioneiros.]

Uma vez por semana podíamos tomar um duche, mas era de água fria. No inverno era terrível. E ali estava eu, com a mão partida a tentar agarrar o sabonete, e o sabonete a escorregar. Do lado de lá das grades, os guardas assistiam aos meus esforços e riam-se. Enchi-me de fúria, agarrei no sabonete com a mão que estava boa e atirei-o com toda a força na direcção dos homens. Acertou em cheio na testa de um deles, num instante transformou-se num unicórnio. Hehehe. Queriam vir-me dar uma tareia, e eu ali nu a desafiá-los: venham, venham!
O meu pai era bóxer, e eu também me sabia defender. Não vieram.

O meu processo tinha 3500 páginas. Pedi para fotocopiarem tudo, levei para casa. Ao ler o que lá escreveram - e escreveram tudo - fiquei pasmado com a minha inconsciência. Como era possível provocá-los daquela maneira? Mas era a única maneira de não me ir abaixo. Isso, e inventar histórias no silêncio da cela.

Às vezes conversávamos com os outros prisioneiros. Batíamos na parede, 1 toque para A, 2 para B, etc. Demorava muito tempo - mas nós tínhamos todo o tempo do mundo.
Durante muito tempo conversei com a prisioneira do lado. Monika. Só muito depois descobri que a Monika era um homem, um agente da Stasi. Passei semanas da minha vida a contar fantasias sexuais a um agente da Stasi!

A Stasi tinha uma rede enorme de agentes: 91.000 para a população da RDA. Compare-se com a Gestapo, que só tinha 7.000 para todo o Deutsches Reich.

[Fui verificar: perto do final da guerra, a Gestapo tinha 31.000 homens. A Stasi tinha uma dimensão inacreditável: 1 agente para 180 cidadãos. A KGB era 1 para 595.]

Acabei por sair da prisão, casei, tive uma filha. Quando tudo se tornou ainda mais insuportável, fiz o pedido para poder abandonar o país. Foi concedido, mas antes o Mielke ainda me deu um presente: meteu a minha mulher na cadeia, e levou a minha filha de cinco anos para ser adoptada por um casal comunista. Nunca mais a vi. A minha mulher não sabia de nada. Eu ia visitá-la, e não lhe dizia nada. Quando a libertaram, e nos concederam licença para irmos morar no Ocidente, ela perguntou pela menina. Disse-lhe a verdade, e ela foi-se abaixo. Contou-me então que tinha sido violada na prisão. Desde então, está a ser acompanhada por psiquiatras. Nunca mais recuperou.

Fomos para Berlim Ocidental. Arranjei um passaporte falso, e ainda fui à RDA buscar mais vinte pessoas. Intelectuais. Queria vingar-me do regime comunista, fiz o que pude para lhes roubar a elite.

Mas um dia vieram atrás de mim. Queriam raptar-me, e levar-me de novo para a RDA. Soube defender-me (andava sempre armado). Mas a polícia ocidental disse-me que não estava em condições de me proteger, caso a Stasi tivesse mesmo decidido raptar-me. Sugeriram-me ir para países distantes. Fui para a Nigéria, na altura da guerra, e andei a fazer o que sei fazer melhor: levar pessoas para fora do país, para os Camarões. Só eu me arriscava a atravessar aqueles territórios ocupados por bandos inimigos.

Depois fui para a Arábia Sáudita e o Iémen. A Stasi não tinha filiais naqueles países.

Quando o muro caiu, a minha mulher disse que estava com saudades da Alemanha. Decidimos voltar. Em 1990. Um dia, entrei num supermercado, e senti um cheiro conhecido. Estava ali um homem que eu conhecia da prisão. Perguntei-lhe se tinha sido agente da Stasi. Olhem, para resumir, só vos digo que aquele encontro me custou 6.500 marcos.

(...)

Os comunistas não sabem fazer contas. Se lhes dessem uma porção de deserto para gerir, haviam de conseguir chegar a uma situação de escassez de areia. O Karl Marx era um garanhão bêbedo. Li o Capital, não percebi nada. Deve tê-lo escrito quando estava bêbedo.

[A visita terminou. Fomos à loja, e comprámos um livro dele. Comecei a folheá-lo, e descobri que a filha não tinha sido levada para adopção forçada. Foi com os pais para Berlim Ocidental. Comecei a perguntar-me quanto do que ele contou seria verdade, quanto seria resultado de uma mistura entre a sua própria história e a de outros, quanto seria pura e simplesmente delírio.

Tenho vontade de ir mais vezes àquela prisão, e falar com muitos dos ex-prisioneiros. Mas talvez seja melhor ler também livros dos historiadores, para não me deixar ir em histórias de agentes da Stasi repentinamente transformados em unicórnios.]


"Noruega"

Ontem, a palavra da Enciclopédia Ilustrada era "Noruega". Escrevi isto:

E a famosa indústria de curtumes da #Noruega? Ninguém fala da famosa indústria de curtumes da Noruega?
Era uma gracinha recorrente nos diários do Adrian Mole: aos 13 anos, ele fez um trabalho sobre a indústria de curtumes da Noruega que foi louvado pela professora. Desde então, sempre que queria impressionar alguém, falava-lhe da indústria de curtumes da Noruega, e achava os outros ignorantes e gente esquisita, por não se interessarem por um tema tão apelativo.
Uma pessoa ri-se. Mas depois fica a pensar no poder de um professor moldar a vida de um aluno. Como aquele que - o caso andou pelas redes sociais há algumas semanas - deu zero ao pequenito que, ao receber o enunciado "escreve com algarismos os números seguintes", escreveu 11 para dez, 12 para onze, e por aí fora. Que consequências pode ter para aquele pequenino tão inteligente receber o seu trabalho cortado a vermelho?
O que nos lembra logo o Einstein, também muito incompreendido pelos professores.
É isto: começo a escrever, e não consigo parar.
A culpa é da professora de português do primeiro ano do ciclo que me andava a dar más notas às redacções, até que a minha mãe foi falar com ela, e um dia recebi um bom com distinção a uma redacção que nunca mais acabava sobre eu levar a vaca da minha avó a pastar, e enquanto o raio do bicho pastava interminavelmente eu punha-me a olhar para aqueles campos minhotos em terraços e a imaginar histórias de princesas e príncipes, e tal.
Deu-me um bom com distinção, e agora é isto: começo a falar do Adrian Mole, acabo no Einstein.
Tivesse a professora persistido no suficiente do costume, e eu teria aprendido a fazer posts como deve ser: ideias bem organizadas, um tema só, tudo muito bem sintetizado.










[ Hoje é "obesidade", mas nem às paredes confesso o que lá escrevi... ;) ]

10 novembro 2017

a Gestapo nossa de cada dia nos dai hoje...

A propósito de uma aluna que fotografou uma lagarta na refeição que lhe serviram na escola, que foi suspensa da escola por ter tirado lá uma fotografia (algo que o Estatuto do Aluno não permite), alguém comparou a direcção daquela escola com a Gestapo.

Para ver se nos entendemos, vou contar uma história horrorosa. Já a contei aqui, mas pelos vistos ainda há quem não tenha entendido.

Uma sobrevivente do Holocausto contou-me que viu com os seus próprios olhos, no pátio do prédio berlinense onde vivia, uma família de judeus a ser metida à força num camião para deportação. Durante aqueles momentos de incrível tensão - as ordens berradas dos Gestapos, a aflição da família, os gritos do mais pequenino, o pai e alguns filhos já dentro, e a mãe com a criança ao colo ainda a resistir - um dos agentes da Gestapo agarrou o bebé pelos pés e bateu-lhe a cabeça com toda a força contra o camião. O bebé parou de chorar - estava morto.

Podíamos combinar o seguinte: quando uma direcção de uma escola fizer algo como agarrar num bebé pelos pés e bater a sua cabeça contra um camião para o matar, podem chamar-lhe Gestapo. Não é que seja uma designação muito correcta, mas pode aceitar-se, dadas as circunstâncias.
Enquanto não fizer nada parecido com isso, é apenas bruta, prepotente, cega, autoritária, o que entenderem por bem chamar-lhe.


A língua portuguesa é muito rica em adjectivos, não é preciso recorrer a palavras estrangeiras. Especialmente quando não se conhece bem o significado delas, e se corre o risco de o alterar por nos habituarmos todos ao mau uso.


o prazer do escárnio e do mal-dizer

A onda de escárnio que ontem alegrou as redes sociais, tornando viral o vídeo de um deputado do PSD a dizer que "a legionella passou a ser totalmente proibida", é apenas mais um triste exemplo deste tanque de tubarões em que nos vamos desfazendo uns aos outros.  

O momento tem muita graça e dá imensa matéria para piadas, é certo, mas o ar ficava mais respirável se não embarcássemos alegremente num exercício de ignorar o contexto e agarrar teimosa e cegamente a literalidade para melhor poder escarnecer de pessoas concretas. Não vale tudo.

Ele exprimiu-se de forma muito incorrecta para dizer que o governo anterior, com o decreto-lei de 2013, assumiu uma atitude de "tolerância zero" nas medidas de combate à legionella. E exemplificou: "não foi criada uma auditoria pontual, foi criada a verificação e fiscalização permanente. Passou a haver a obrigação de existir, para cada um destes equipamentos, um técnico de manutenção”.

Não vou discutir se ele tem razão ou não, e muito menos de quem é a culpa do novo surto de legionella.

Quero apenas lembrar que a qualidade do debate público depende de cada um de nós, e que se há algum "je suis" que vale realmente a pena é o "Je suis Democracia". Tentar desqualificar um interlocutor com base numa frase formulada de forma infeliz é um golpe baixo que não serve a vida democrática.




09 novembro 2017

o melhor jantar desta semana


(foto: receita)

Para que não digam que neste blogue não se aprende nada, partilho a receita do melhor jantar desta semana. Foi bife de atum, com um acompanhamento de manga que lembrava ceviche. Servido com um bocadinho de arroz basmati. Uma delícia, podem crer.

Agora combinamos o seguinte: eu conto a receita, e vocês dizem-me o truque para fritar bifes de atum sem ficarem muito secos. É que foi mesmo a única coisa que não foi perfeita.

Ingredientes:
30 g coentros frescos
2 chili (vermelhos, pequenos, sem sementes) (eu usei metade de um seco, mas com sementes)
4 dentes alho picado
3 cm gengibre fresco picado
2 cs azeite
4 bifes de atum (ca.175g cada um)

1 manga
1 échalote cortada em rodelas finas
15 g coentros frescos picados
sumo de lima (usei sumo de limão)

Fazer uma pasta com os 30 g de coentros, o chili, o gengibre e o azeite. Esfregar o atum com ela, e guardar 1 ou 2 horas no frigorífico (não fiz esta parte do frigorífico, que era o que me faltava jantar depois da hora de ir dormir)
Descascar a manga e cortá-la em fatias finas. Espalhar num prato, e cobrir com as rodelas de échalote, os coentros e o sumo de lima.
Fritar os bifes de atum com pouca gordura e servir com a manga.

o fim da dicotomia


Ontem, o Tribunal Constitucional alemão decidiu sobre a criação de uma terceira categoria relativa ao sexo no registo civil. Até agora só havia "masculino" e "feminino". Segundo o Tribunal Constitucional, deve ser criada uma designação positiva, algo como "inter" ou "diverso".

O processo começou com uma pessoa de 25 anos, que escolheu para si o nome Vanja (o "j" pronuncia-se "i") porque é usado tanto por homens como por mulheres. A análise dos seus cromossomas não permite uma classificação nem como homem nem como mulher. 

Traduzo de um artigo do Spiegel de 2014, quando Vanja foi ao registo civil da sua cidade pedir para mudar de "feminino" para "inter/diverso", dando origem ao processo que foi de instância em instância até culminar na decisão de ontem.

Vanja N. é intersexual, ou seja, não é possível decidir, a partir da análise dos seus órgãos sexuais ou das suas hormonas, se se trata de um homem ou de uma mulher. Estima-se que na Alemanha haja 80.000 pessoas nesta situação. Vanja está a lutar por uma alteração no seu registo de nascimento: em vez de "feminino", deve ler-se "inter/diverso". O caso está a ser estudado por um Tribunal.

Vanja: Não sou homem, não sou mulher, sou inter. Quando nasci, parecia uma rapariga. Hoje tenho barba - ou seja, a masculinidade também é um dos meus traços biológicos. Estou farto/a de ter de escolher entre dois sexos quando preencho formulários, pratico um desporto ou vou à casa de banho pública. De cada vez que isso me acontece, é como se me dissessem: "tu não existes".


Comentário de Dirk Kurbjuweit a propósito desta decisão história do Tribunal Constitucional:

Às vezes acontece algo realmente importante sem nos darmos conta disso. Ontem, o Tribunal Constitucional Federal decidiu atribuir direitos próprios ao terceiro sexo. Para a Alemanha, trata-se do início oficial do fim da dicotomia clássica homem/mulher, que vigorou durante centenas de milhares de anos. Também outros países estão a trabalhar em novas leis do género. Teremos de nos habituar a isso, o que não tem mal nenhum.
O mundo sempre foi mais complexo do que as regras que se lhe aplicam. Devido à sua própria natureza, as regras também são simplificações. O progresso implica a adaptação das regras à crescente complexidade da vida. Por sua vez, a crescente complexidade vem das novas liberdades de pensamento e de acção. O Tribunal Constitucional Federal merece a nossa gratidão por este veredicto.


--

Ao escrever este texto tive alguma dificuldade em decidir como escrever certas palavras referentes a Vanja: ele/ela, dele/dela, está farto/farta.
Prevejo desafios muito interessantes para o pessoal das gramáticas, e sinto já muita curiosidade para saber que soluções vão encontrar. 


08 novembro 2017

"contra a doença do politicamente correcto" (2)

O problema das fake news é que uma pessoa tem de estar muito atenta ao mundo real e informada sobre ele para conseguir destrinçar o trigo do joio.

A crónica da Bárbara Reis, de que falei no meu post anterior, por exemplo: só quando cheguei à parte das rastas e do padrão da Bimba & Lola é que - por estar mais por dentro dessa temática - comecei a suspeitar que a jornalista não teria a menor ideia do que estava a falar. Foi isso que me levou a investigar cada um dos exemplos que ela deu, acabando por confirmar - infelizmente - as minhas suspeitas.

Já é suficientemente complicado protegermo-nos das fake news que andam nas redes sociais. Mas se também temos de desconfiar do que escreve uma antiga directora do Público, o sistema falha em pleno.

Tempos houve em que se respeitava o jornalismo porque nele se via um pilar fundamental do sistema democrático...


"contra a doença do politicamente correcto" (1)

A jornalista Bárbara Reis escreveu recentemente uma crónica no Público tomando partido contra aquilo a que ela chamou "a doença do politicamente correcto".

A sua tese:

"Caminhamos para uma sociedade que aceita e promove a censura (...). Levado ao extremo, infantilizados, mecânicos e em permanente cuidado para não perturbar, nem dizer ou fazer alguma coisa incómoda, um dia nenhum adolescente dará um primeiro beijo sem antes ter na mão um papel assinado a garantir que o gesto é bem-vindo."

Continua:

"Exagero? Sim, mas não é exagero o que se passa nas universidades americanas e inglesas e, em menor escala, nas portuguesas?"

Dei-me ao trabalho de gastar algum tempo com cada um dos exemplos dados por Bárbara Reis, e concluí que a jornalista não se deve ter dado ao menor esforço de tentar entender o que estava por trás de algo que lhe pareceu estranho. Limitou-se a agarrar nas parangonas tipo Daily Mail, trazendo-as para o seu texto com o pior resumo possível - o que melhor serve a sua tese. Bem sei que escreveu uma crónica e não uma notícia, mas tenho alguma dificuldade em perceber que seja possível a um jornalista meter os princípios, a ética e a curiosidade profissional no bolso quando está a escrever "apenas" um artigo de opinião.

Vejamos com mais detalhe os exemplos que Bárbara Reis dá daquilo a que ela chama "exageros que se passam nas universidades americanas e inglesas":



1. Na School of Oriental and African Studies, de Londres, alguns estudantes pediram menos “filósofos brancos” (o que seria se a Universidade Católica não ensinasse David Hume por ser ateu?)

O exemplo da Universidade Católica e de Hume está mal escolhido. A questão é mais: o que seria se num curso de teologia católica a matéria fosse dada quase exclusivamente a partir da perspectiva de  budistas, confucionistas, muçulmanos e ateus?
Para averiguar o que se passou realmente, nada como ir directamente às fontes: na Escola de Estudos Africanos e Orientais (sublinhado meu) e no âmbito dos esforços de tomar consciência do legado colonial dentro dessa instituição, a associação de alunos emitiu um  documento sobre as prioridades educacionais, no qual propunha:
- To make sure that the majority of the philosophers on our courses are from the Global South or its diaspora. SOAS’s focus is on Asia and Africa and therefore the foundations of its theories should be presented by Asian or African philosophers (or the diaspora).
- If white philosophers are required, then to teach their work from a critical standpoint. For example, acknowledging the colonial context in which so called “Enlightenment” philosophers wrote within.

Para quem quiser entender melhor este caso, em vez de se ficar pelas garrafais tipo Daily Mail, recomendo dois textos:
- Soas students have a point. Philosophy degrees should look beyond white Europeans
Resumindo muito: informa que a Escola de Estudos Africanos e Orientais (repito o sublinhado) não tem um BA em Filosofia, mas apenas em Filosofias do Mundo, no departamento de Religiões e Filosofia; lembra que o tempo dos estudantes não é ilimitado e que por isso é natural que no currículo do curso de Filosofias do Mundo de uma escola de estudos orientais e africanos (desculpem repetir-me) os pensadores africanos e asiáticos só devam ser preteridos a favor dos europeus quando se considerar que estes têm contributos essenciais ao estudo de determinada realidade; congratula-se pelo sinal positivo que vê no facto de estudantes se pronunciarem sobre os currículos da sua escola.
 - Are Soas students right to ‘decolonise’ their minds fromwestern philosophers?
O autor falou com estudantes e professores da escola, e escreveu um texto muito inteligente e informativo - para quem se quer dar ao trabalho de se informar, em vez de ficar pela rama das parangonas que servem uma determinada imagem que se tem do mundo.



2. em Cambridge houve críticas à comida “culturalmente insensível” do refeitório

O caso está aqui descrito. Era mais ou menos como servirem batatas cozidas com bacalhau, alheira e couve-galega e anunciarem na ementa da cantina "cozido à portuguesa". Se um português protestasse e afirmasse que essa combinação não tem nada a ver com a cultura gastronómica do seu país, era caso para o acusar de sofrer da "doença do politicamente correcto"?


3. o Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College pensa retirar os retratos dos seus fundadores

Esta, até o Daily Mail explica: foi decidido alterar a aparência do hall da entrada da escola, criando uma amostra de diversidade (incluindo académicos pertencentes a minorias étnicas), e transferindo os bustos dos fundadores e os retratos dos antigos decanos para outros lugares do edifício. Como diz um decano, no artigo do Daily Mail: "We’re trying to reflect the diversity in terms of students we have, but also trying to be more inter-cultural, more international in terms of how we develop the science."
Aqui para nós, que imagem de faculdade nos parece mais apelativa e moderna? A que exibe na entrada bustos e retratos dos fundadores e dos decanos, todos "homens brancos de barba", como se dizia no artigo do Daily Mail, ou a que exibe na entrada fotos de uma extraordinária rede de investigadores provenientes de todo o mundo?


4. a City University, famosa pela escola de jornalismo, proibiu jornais tablóides

A City University não proibiu jornais tablóides. Uma assembleia de estudantes (com a extraordinária representatividade de 1% do corpo estudantil) votou uma moção de carácter sobretudo simbólico para banir os tablóides. A ideia era fazer algo para impedir que certos jornais continuem a alimentar o fascismo, as tensões sociais e o ódio na sociedade. A moção deu origem a um acalorado debate e a firmes tomadas de posição muito críticas por parte do corpo docente e de muitos alunos da escola.
O Guardian explica: The motion said the titles have published stories that demonise refugees and minorities, have posted Islamophobic stories and “all actively scapegoat the working classes they so proudly claim to represent”. It added that “freedom of speech should not be used as an excuse to attack the weakest and poorest members of society” and that the titles publish stories that are “inherently sexist”.
The motion, while largely symbolic, is embarrassing for the university, which runs one of the UK’s top journalism programmes.
O artigo do Guardian fala ainda de tomadas de posição no debate que se seguiu, nomeadamente: “Students on our journalism courses value being able to access the views of publications and broadcasters across the industry and the department will continue to enable all these opportunities”;  “We combine professional skills training with a concern for professional standards and the importance of fair, impartial and ethical reporting is at the heart of our courses.”; “People should be free to choose what they read. Rather than banning things, we should be encouraging people to voice their objections to views and opinions they don’t like.”; “The students in the class I was teaching today were furious and understandably so at gesture politics from a fraction of the student body. They understand that the answer to journalism that you may not like is to do the journalism better.”


5. e no University College, a associação Nietzsche Society foi proibida por receio de estimular o pensamento fascista.

Não, Bárbara Reis. A tal associação, que antes de se chamar "Nietzsche Society" tinha o nome "Tradition UCL", não era um grupo de académicos interessados no estudo sério de um filósofo. Se investigasse um pouquinho ia dar-se conta de que a Nietzsche Society andou a espalhar na universidade cartazes assim:


Em resultado disso, foi aprovada uma moção para banir o grupo daquela universidade.
Bem sei que a Academia é um lugar de debate e liberdade, mas neste caso parece-me que o tal "exagero que se passa nas universidades americanas e inglesas" está mais do lado de quem afixa um cartaz com um lema dos white supremacists ilustrado por uma imagem de macacos, que do lado de quem quer banir da Academia "debates intelectuais" deste nível.

Estes cinco exemplos têm três características comuns:
- foram contados de uma forma, digamos, trapalhona;
- os factos não têm uma dimensão que justifique sequer falar-se deles, quanto mais usá-los para fundamentar a tese do "estamos cercados pelo politicamente correcto" (e se é só este tipo de exemplos que a Bárbara Reis consegue arranjar...)
- todos eles são iniciativas para corrigir situações de falta de respeito pelas minorias, e em todos eles a Bárbara Reis opta por criticar não a falta de respeito em si, mas quem a pretende corrigir.

 Outras acusações que Bárbara Reis faz, para justificar que se lute contra a "doença" do politicamente correcto:
 
- um americano de origem asiática não pode usar rastas sem ser acusado de “apropriação cultural”
Como o próprio texto mostra algumas palavras mais tarde, pode. Por pertencer a uma minoria, a outra minoria não se sente ameaçada pela assimetria de poder. 
Muito haveria a dizer sobre rastas e apropriação cultural, mas proponho que se volte a falar deste detalhe daqui a uns anos, quando tiverem tirado o elefante do meio da sala. Quando, por exemplo, não houver jornalistas a criticar quem quer banir do campus universitário um grupo de white supremacists depois de este ter espalhado na universidade cartazes como o que se vê na imagem acima.  

- E a colecção de Verão da Bimba & Lola, cujo padrão eram caras de mulheres masai? Uma homenagem ou uma objectificação da tribo queniana? Ou a intenção foi, simplesmente, desenhar um padrão bonito, que poderia ter caras de bebés louros, austríacos com chapéu tirolês ou cozinheiros de bigode comprido?
O problema é que este padrão reforça a ideia de "africano" como "exótico" e "primitivo".
Chimamanda Adichie conta com muita ironia um episódio a propósito desta questão: quando foi estudar para os EUA, a sua colega de quarto, muito simpaticamente, mostrou interesse pela sua cultura. Queria ouvir "música tribal" e ficou surpreendida quando Chimamanda lhe mostrou a sua cassete da Mariah Carey.
Também aqui proponho que se volte a falar do padrão da Bimba & Lola quando na nossa sociedade as pessoas da maioria olharem para uma pessoa de pele escura, olharem para ela nos olhos, e virem nela um igual e não um "exótico" e um "primitivo".



A crónica de Bárbara Reis termina com a acusação de que andamos a perder tempo com microagressões, quando há coisas bem mais graves para resolver, e dá exemplos: grave é o juiz do Tribunal da Relação do Porto ter sido conivente com um brutal acto de violência doméstica; a desigualdade salarial entre homens e mulheres; não deixar entrar negros na Urban; o contínuo silêncio que persiste em Portugal sobre a pedofilia na Igreja.

Sim, são questões muito graves. No entanto, há esperança: Bárbara Reis é jornalista. Em vez de gastar tempo a espalhar no mundo histórias muito mal contadas para dar a impressão de que o politicamente correcto é uma loucura que nos cerca e ameaça seriamente, pode usar o lugar e o poder que tem para participar na luta por um mundo melhor.

Só tem de fazer o seu trabalho. Mas convinha que fosse bem feito.

(Sim, estou irritada: gastei demasiado tempo a fazer o trabalho que Bárbara Reis devia ter feito antes de escrever o que escreveu.)

onde é que você estava quando soube que o Trump venceu as eleições?

Dirk Kurbjuweit sobre a efeméride do dia (em tradução rapidíssima):

Um cruel despertar

Lembra-se desta quarta-feira, há um ano? Quando acordou e olhou para o telemóvel, tal como fez agora? Lembra-se do que sentiu quando leu que Donald Trump tinha vencido as eleições nos EUA? A sua incredulidade. O seu choque. O seu desejo de ainda estar a dormir e a ter um pesadelo. O seu temor de que isto pudesse ser o fim do mundo tal como o conhece. Eu lembro-me bem: passei os dias seguintes sentindo-me a viver dentro de uma nuvem densa.

Entretanto passou um ano, e espero que para si tenha sido um bom ano, um ano normal na sua vida. Afinal de contas, tivemos essa possibilidade. Não começou nenhuma guerra, não houve nenhuma crise financeira. Trump não alterou o nosso quotidiano.
Não havia motivos para inquietação?

É este o paradoxo da situação em Novembro de 2017. Tudo continua como era, e tudo está diferente. Se o estado da democracia liberal nos for indiferente, terá sido um ano muito bom. Caso contrário, foi um horror.



Uma expressão desapareceu em 2017. Inteligência do enxame. É a base da democracia liberal. A expressão "inteligência do enxame" exprime a convicção de que a maioria é razoável e que é capaz de, por exemplo, fornecer resultados eleitorais mais ou menos viáveis. De um modo geral, depois de 1945 no mundo ocidental podia-se confiar na inteligência do enxame. Com as eleições de Trump, essa confiança foi destruída.

Donald Trump não desencadeou nenhuma guerra, não provocou nenhuma crise financeira, não aboliu a democracia dos EUA, não mostrou ser um fascista, mas revelou ser mentiroso, vingativo, mesquinho, egocêntrico, infantil, desorientado e sem plano. Ainda não é claro se ele quer obter algo para os EUA, ou apenas para si, para a Ivanka e para o resto do clã. E o que era mesmo aquilo com os russos?

Trump quis quase sempre o que era errado, e só não o conseguiu por ser um incapaz. E por encontrar a resistência de um sistema de justiça, de um sistema político e de uma sociedade civil que em parte o desafiaram destemidamente. O que é um pequeno consolo.

A economia americana vai bem, mas isso não tem muito a ver com Trump. E numa democracia, ao contrário de uma ditadura, interessam não apenas os resultados, mas também os processos. Como é que as pessoas se relacionam? Qual é o nível das discussões? As palavras são as fundações de uma democracia, e nunca no mundo ocidental um presidente enviou para o mundo palavras tão estúpidas e indizíveis como Trump.

O enxame tomou uma decisão catastrófica, mas por enquanto a catástrofe manifesta-se mais ao nível do ânimo dos democratas liberais que ao dos factos concretos. Mas isso já é suficientemente mau. E outros desastres podem ocorrer. Precisamos de manter a esperança. Pelo menos por mais três anos. 






07 novembro 2017

no centenário da Revolução de Outubro, que foi em Novembro



Wladimir Kaminer, no facebook:

Na Rússia, a terra da grande Revolução de Outubro, não se vai festejar o centenário.
Não há um projecto para os festejos. Uma encenação da tomada do Palácio de Inverno do Czar foi rejeitada pelos governantes do país, porque não se sabia se depois conseguiam tirar as pessoas de lá. A ocupação dos correios e do banco central estava fora de causa. Uma possibilidade seria atirar de novo, guardando uma distância de segurança, a partir do cruzador Aurora, e encerrar com uma récita de piano do futuro presidente russo W. Putin. Não é em vão que ele anda a estudar "Yesterday" há 18 anos. No entanto, segundo informações da frota russa, o cruzador não está em bom estado e não conseguiria sobreviver a tal fogo-de-artifício. Na Alemanha, pelo contrário, o país que foi poupado a esta revolução, o centenário é festejado em muitas localidades. Em Freiburg festejamos esta semana com a Russendisko - todos welcome!







chamar "bolo de chocolate" a isto é um ligeiro understatement...

(Agarrem-me, que estou capaz de ir agora mesmo comprar 1 kg de chocolate e 1 l de natas, e recomeço a pensar na tal dieta mais lá para quarta-feira...)




Filme e receita tirados de: Twisted Food

Base:
15 digestive cookies
6 tbsp butter, melted and cooled
85g dark chocolate, broken up
Mousse:
400 g dark chocolate, chopped
2 1/2 cups heavy cream
1/4 cup espresso
Ganache:
2 cups heavy cream, hot
454g dark chocolate finely chopped

How You Make It:

  1. Grease and line a 9” springform pan.
  2. In a food processor, pulse the cookies, butter and dark chocolate until crumbled.  Pour into the base of a springform pan and press down evenly.  Refrigerate for 30 minutes or until needed.
  3. Melt 400g of chocolate in the microwave in 30-second intervals. Let sit for about 10 minutes to cool.
  4. In a large bowl, whip together heavy cream and espresso until soft peaks form.   Gently add the whipped cream to the cooled chocolate in batches and fold gently to combine.
  5. Pour on top of the base and spread evenly. Refrigerate for 3 hours or overnight.
  6. Meanwhile, make a ganache. Add heavy cream to chocolate.  Let sit for 1 minute then stir together starting in the middle until completely combined.
  7. Remove mousse from springform pan leaving it on the base and set over a rack. Pour warm ganache over chilled mousse cake and let drip over the sides.
  8. Gently tap the tray to pop any air bubbles.
  9. Transfer to fridge for 30 minutes to set.
  10. Enjoy!

à atenção dos editores do Jornal Económico


Enviei uma mensagem à autora do artigo com este título, com cópia para os editores. Como a mensagem veio devolvida, envio de novo por este meio:

Cara Leonor Mateus Ferreira,

vi no facebook um texto seu com o título “Alemanha está a preparar a queda da Europa

Pergunto-me com que objectivo pega na notícia de um mero documento do exército alemão que, a partir do actual contexto europeu, desenha vários cenários possíveis em 2040, e lhe dá o título “Alemanha está a preparar queda da Europa”. Será que o Jornal Económico passou do jornalismo para a ficção e o sensacionalismo, e esqueceu-se de avisar os leitores?

Entrando no link, vê-se que o título foi corrigido para “Alemanha está a preparar-se para a queda da Europa”. Ainda não é a verdade (o documento do exército traça cenários plausíveis sem sequer aludir a eventuais necessidades de ajustamentos nas forças armadas), mas pelo menos não é a acusação mentirosa e torpe do primeiro título que escreveu. No entanto, o que está a ser partilhado nas redes sociais é o título inicial, no qual o Jornal Económico afirma que a Alemanha está a planear a queda da Europa.

Naturalmente, pode-se argumentar que “preparar” tem muitos significados. Mas, como dizia o outro, o português é uma língua muito traiçoeira. Se não quiser contribuir para fake news e discurso de ódio contra o extraordinário esforço de criar um espaço europeu sem guerra, tem de escolher melhor as palavras que usa nos títulos. O título que anda nas redes sociais é absolutamente lamentável, e dá uma péssima imagem de si como profissional e do Jornal Económico como órgão de informação.

Caso esteja interessada em verificar na fonte o material sobre o qual escreveu: http://www.spiegel.de/politik/deutschland/bundeswehr-studie-haelt-zerfall-der-europaeischen-union-fuer-denkbar-a-1176367.html

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Adenda importante - Poucas horas depois do envio da mensagem, a jornalista respondeu-me o seguinte:

"Bom dia Helena,

Obrigada pelo seu e-mail e pela chamada de atenção.

Realmente, o título não estava corretamente formulado e foi alterado minutos depois da publicação da notícia.
No entanto, nas redes sociais, a mudança não é automática e, por lapso, não foi alterado. Entretanto, já foi corrigido.

Apesar disso, chamo-lhe a atenção para outra questão: ao contrário do que disse, a notícia não é sobre os documentos alemães divulgados no fim de semana.
O título completo da notícia indica exatamente que um cronista do Guardian afirmou que a Alemanha se está a preparar para a queda da Europa. A notícia é sobre uma posição tomada em relação aos ditos documentos.

De qualquer forma, agradeço-lhe novamente ter alertado para o erro.
Cumprimentos,

Leonor Mateus Ferreira"


 

04 novembro 2017

racismo e coragem civil

Vi um vídeo das agressões à porta da discoteca Urban. Só um, e fiquei com uma dúvida: no meio de todos aqueles assistentes, algum chegou mais perto e gritou "eh, lá! Parem com isso! Vou chamar a polícia!", ou algo assim?
Ou limitaram-se a filmar, e a fazer comentários chocados para as pessoas que tinham ao lado?
A coragem para ajudar, agora é só via facebook?

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Fiz esta pergunta no facebook, e responderam-me o que se segue.
(todas as frases seguintes são copiadas ou são resumos de comentários no meu facebook)

- Quem se chegasse perto também apanhava;
- Num caso destes, o melhor é chamar a polícia do modo mais discreto possível, não vão os "seguranças" reparar no acto e começarem as represálias;
- Também não convém filmar de forma muito ostensiva;

- Há conivência e protecção por parte da polícia, pelo que não vale a pena chamá-los (este caso da Urban, por exemplo: o piquete da PSP chamado ao local só registou a ocorrência 36 horas depois, após o protesto/inquérito da chefia ao ser confrontada com a mediatização do vídeo);
- Portanto: nos dias que corr
em, só depois de o caso andar no facebook , no youtube ou no instagram é que as autoridades actuam;
- C
hamar-se a polícia numa situação destas é o lado para os seguranças dormem melhor. Eles estão habituados a cenas com a polícia, a maior parte tem amigos na polícia, e alguns até são ou foram polícias. Eles não têm medo de nada e têm razão para não ter medo. O pior que lhes acontece é uma pena suspensa e uma palmada na mão. Isso para eles é uma medalha. Se forem mesmo presos então, tornam-se realmente temidos. São lógicas completamente maradas e eu não aconselho ninguém a meter-se nesses assados, nem chamo covardia às pessoas não irem lá apanhar porrada "solidária".
Outra coisa completamente diferente, e que faz realmente efeito, é, como se fez, fechar aquilo... tirar as licenças aos donos e aos seguranças, ir-lhes ao bolso...



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Pequeno intervalo para tirar conclusões: num país que acredita não ser racista, há discotecas que não deixam entrar pessoas devido à cor da sua pele, e toda a gente sabe mas continua a frequentar esses lugares. Num país que afirma que a violência é um monopólio do Estado, os seguranças privados sentem-se à vontade para agredir brutalmente as pessoas a quem recusaram a entrada, e quem as queira socorrer. Num país que acredita ser um Estado de Direito, as pessoas assistem às brutalidades sem fazer nada porque temem apanhar também, e partem do princípio de que não vale a pena chamar a polícia, porque os polícias estão feitos com os seguranças.

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E agora?
Na impossibilidade de resolver de raiz o racismo, os esquemas entre polícias e seguranças, a mentalidade dos seguranças e as lacunas do Estado de Direito, sugiro simplesmente que seja obrigatório haver câmaras e gravadores de voz à entrada de todos esses clubes (e agarrem-me, que estou quase a propor quotas para pessoas não brancas). Se houver queixa de alguém por não ter podido entrar, a autoridade competente vê as gravações de imagem e som para averiguar os critérios dos seguranças e a justeza da decisão tomada em relação àquele cliente. Se a queixa for justificada, tanto o estabelecimento como o segurança são penalizados.

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Ou outra solução qualquer. Mas é preciso fazer algo, porque os relatos que se seguem deixam bem claro que é preciso agir com urgência e determinação. Isto é uma vergonha e é absolutamente inaceitável.

1. Connor McCreesh (link)

2. Ruben Murray, no facebook:

I usually do not overshare on Facebook but this must be said.
This is an open letter addressing an act of violence and racism that my family, my friends and myself were victims of.
On the night of August 12th, I was attacked outside the K Urban Beach club in Lisbon, Portugal. I was choked then kicked multiple time in the head and ribs by four men with my little sister watching. When my sister tried to intervene she got pulled away by the hair and bruised. Two other male friends were attacked when filming the situation and confronting the assailant, and one female friend was handled violently. The assailants were the security of the club. We did not represent a threat to anybody, we were just seeking answers and we got our taste of the extent of racism and biases ingrained in our society. In this post, I will describe the series of event that lead up to the incident and what followed, along with my own point of view on the situation.
After a night of bar hopping in the Bairro Alto, my friends and I attempted to go to a nightclub called the K Urban Beach on the docks of Santos. I was familiar with this club because my senior year of high school I went there with a group of friends and was told I needed to pay 350 euro to get in, while my friends got in for free. I am black and they are white. After refusing to pay nor to leave, I was physically kicked out with my friends still inside. At that time, I had a pretty big Afro and was wearing African print pants, so I justified their response by thinking this was not your usual clubbing attire. I went to this club for a second time in December 2016, this time in “acceptable” clothing, but we were still asked to pay $350 to get in. The last time I tried was the night of August 11th, with two of my best friends, my sister, and my sister's friend. The reason why I decided to try again is unknown: maybe I wanted to trust my white friend who told me it was a lot of fun when he got in two years ago, maybe I wanted to show my little sister that I too could “roll” with the gang, or maybe I wanted to prove to myself that it was not my color that always kept me at the gate.
That night, we briefly waited in line, and in front of us a group of four white men, wearing white button ups, got in. We were a diverse group: my sister and I are mixed with impressive hair, one of my friends is black Caribbean and the other is Portuguese, and my sister’s friend is white. When we got to the bouncers, we were told it was a private party and we had to pay $250. We were exasperated and frustrated. It's a basic act of frustration that bouncers are supposed to deal with in a calm manner to de-escalate a potential violent situation. We told them their decision was clearly racist. After exchanging harsh words, I tried to get everyone to turn around and leave, but my Portuguese friend and my sister’s friend stay, contesting their decision. I walked away with my sister and my other friend. We turned around to tell my friend it was not worth it and we saw him getting punched in the face by one of the bouncers. We rushed to help. Their reaction was automated and weirdly organized: at least eight bouncers lined up between me and my friend who was getting beat up. I tried to get to my friend but got punched in the stomach by a raging, white bouncer. I heard a scream to my right, and saw that my friend had fallen to the floor and appeared to be convulsing - he has asthma and had been in a chokehold so I immediately rushed over to him. One of the bouncers kneeled and was about to continue punching my friend who was on the floor in a semi-conscious state When I pushed him away, I immediately felt something tightening around my neck: I was put in a chokehold by one of the bouncers. Once I was unable to retaliate, I was put on the floor and punched and kicked in the face and the ribs while I was trying to catch my breath. Thankfully I was able to protect my head with my elbows but they got in at least six successful jabs to my face and four on my ribs, and I have carpet burns on my elbows from being dragged on their “red carpet.” My sister and her friend, thinking they wouldn’t be handled violently, rushed to stop the situation. My little sister was dragged by her hair for several feet and handled very violently, as was her friend. I have never seen in my life women being handled so violently. After they were done with me, I managed to stand up and take pictures, but they deliberately flashed their flashlight at our phones to make the photos blurry. I later found out my friend was put in a chokehold in the first place for filming the beginning of the situation. Their quick resort to violence, their organization, and their attempt to prevent photo documentation indicates that this behavior was tactical, rehearsed and commonplace. The scene was so violent, two young women we did not know called the police. When the police came, they told us the only thing we could do is file a report to the police station the following day, but we all know there is never justice in those cases. One of the bouncers even approached them, not intimidated, to tell them the police officer could come inside talk to the director of the nightclub, his casual behavior jarringly different from the violence he had just committed against us.

These 8 bouncers wanted to hurt us/ This was not an interaction between drunk people and normal respectful bouncers, it was five young adults and teenagers trying to party in Lisbon, and a team of racist, violent bouncers. These animals wave the image of our bruised faces like trophies, therefore I will not share a photo of my mine.
Two days before the incident, I was called a racist by a friend because I used the notion of race in a discussion. "I don't see race," she said. I saw the consequences of not talking about the racial problem in our world when I felt the bruises on my ribs, the bumps on my head and the pain around my neck. Violence against people of color is often perceived as a myth for a lot of people, and it is even as a person of color it is hard to realize that this is still real. Why? Because it's 2017, and we might be more privileged than our parents, so we tend to forget about it when we aren’t usually faced with violence To my white friends, to those stronger than the oppressed ones, we will stand up but please do too. Please call out the people around you for perpetuating racism, in public or in private. Call out your racist family members, do not let people get too comfortable. But don't be aggressive, talk first, explains why this behavior is wrong. This is 2017, this shouldn't happen anymore.
“Injustice anywhere is a threat to justice everywhere.” Let's get justice. I’m glad I am still here to fight another day.
Here are links where you can put horrible reviews to this club. Google K Urban Beach and write the worst review. Here is some other place where you can write reviews.
https://www.tripadvisor.fr/Attraction_Review-g189158-d73740…
https://www.yelp.fr/biz/urban-beach-no-title
I have reached out to other people who have a similar experience in the day preceding ours. We are trying our best to shed light on this club’s horrific behavior.

02 novembro 2017

aula de alemão

Os vizinhos russos pediram à Christina que faça baby-sitting com a filha deles, de dois anos, para a miúda aprender alemão.
Começaram a hora de aprendizagem com o Fox. A Christina dizia em alemão "os olhos", "as orelhas", "o focinho", e a miúda repetia tudo muito atenta - mas em russo. Estamos a aprender imenso com ela.
Às tantas a miúda conseguiu dar o salto para fora da sua língua materna. Virou-se para o cão, e disse: "anda cá, Fox!"
Em português.

27 outubro 2017

um conselho às raparigas portuguesas...

Lembram-se daquele conselho que o D. José Policarpo deu às raparigas portuguesas?
"Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam."

Ora, já que ultimamente está na moda citar a Bíblia, trago uma frase do Evangelho de  Mateus (Mt. 7:5): "Tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão."


Um belo exemplo de trave no olho dos portugueses, que tão bem sabem repudiar esses países onde se pratica a sharia e se dá à mulher uma posição de subalternidade, é este caso do acórdão do juiz Neto de Moura e a juíza Maria Luísa Arantes. Atente-se nos detalhes do caso (e há muito mais, mas isto é só um post, não é um compêndio): 
 

Segundo o acórdão:

14 ) No seguimento de tais factos, os arguidos X e Y provocaram na assistente A as seguintes lesões: - na cara: ferida corto - contusa com 2 cm, suturada com 5 pontos de seda na região frontal; - no pescoço: lesão abrasiva na região ântero - lateral direita numa área de 3x4 cm; - no tórax: - equimose de 5x4 cm na mama esquerda, » escoriação de 7 cm na mama direita; * equimose de 4x4 cm na omoplata esquerda; - no abdómen: equimose de 10x4 cm na região do flanco esquerdo; - no braço direito: 15 escoriações lineares na regiã o posterior do braço, a maior das quais com 8 cm de comprimento, 9 equimoses na região anterior do braço e antebraço, a maior das quais com 6x3 cm e equimose na região posterior do polegar de 6x1 cm; - no braço esquerdo: equimose de 12x11 cm na região poster ior do 1/3 médio do braço; equimose de 9x4 cm na região posterior do antebraço; 3 equimoses na região anterior do antebraço, a maior das quais com 6x4 cm; - na perna direita: equimose de 7x3 cm na nádega; - na perna esquerda: equimose de 4x2 na região posterior do joelho, equimose de 4x2 na região posterior da perna, lesões estas que determinaram 20 dias para a consolidação médico - legal, com afetação de 10 (dez) dias da capacidade de trabalho profissional e com afetação de 1 (um) dia da capacidade de trabalho geral.

Perante isto, o juiz diz:

"Este caso está longe de ter a gravidade com que, geralmente, se apresentam os casos de maus tratos no quadro da violência doméstica."Que é como quem diz: Oh pá, só cinco pontos na cara, além de uns arranhões e nódoas negras no corpo todo?! Nem traumatismo craniano nem nada?! Irra, como se atrevem a vir a tribunal com bagatelas? Não me venham incomodar por tão pouco, num país onde todos os anos a violência doméstica mata dezenas de mulheres!
Sobre o ex-namorado, que sequestrou e agrediu a vítima, e chamou o ex-marido para vir bater também, "cumpre referir que tal sucedeu devido ao facto de o arguido ter tido um  relacionamento  amoroso  com  a  ofendida,  o  qual,  na  altura,  tinha  recentemente acabado, e só se percebendo tal atitude devido a tal facto.

Por  outro  lado,  e  como    se  afirmou,  o  arguido,  aparentemente, encontra-se inserido socialmente, e não tem antecedentes criminais, e do relatório social efectuado ao mesmo, resulta que já terá ultrapassado toda esta situação."Que é como quem diz: batia porque gostava; mas como agora já não gosta, a mulher já não corre mais perigo de levar outra tareia .
 
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Nem sei se fico aliviada ou triste ao constatar que a notícia do juiz machista do Porto não chegou à imprensa alemã. No horizonte dos alemães, Portugal praticamente não existe.
Mas talvez seja melhor assim, neste caso. Sabe-se lá o que é que um partido como a AfD, que cavalgou a onda de medo da "islamização da Europa", seria capaz de fazer ao projecto europeu caso se tornasse conhecido que em Portugal o Sistema de Justiça tem algumas dificuldades em distinguir entre lei, por um lado, e religião e hábitos machistas, por outro.

E era o que mais faltava ter agora um Alexander Gauland a dizer às raparigas alemãs:
"Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um português, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Deus sabe onde é que acabam."